quarta-feira, 2 de abril de 2014

Campanha contra o estupro e abuso sexual de menores - Reprodução de texto e fotos da FolhaOnline


Bastou pouco mais de um dia para que uma foto enviada pela leitora e estudante Bianca Medeiros, 19, se tornasse a imagem mais visualizada e compartilhada nos quatro anos da página da Folhano Facebook.
Ela foi feita na semana passada, em apoio ao protesto virtual "Eu não mereço ser estuprada" –e incentivou que dezenas de fotos com teor semelhante fossem mandadas. Bianca diz que a iniciativa foi para que a manifestação "não perdesse força".
"O dedo é um gesto de protesto contra os 65%", afirma a estudante, em referência à pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que deu origem ao ato virtual ao apontar que dois terços dos brasileiros acham que a mulher que mostra seu corpo merece ser atacada.
Após postada no Facebook, a imagem de Bianca alcançou quase 11 milhões de usuários. Três leitoras, motivadas pela postagem, decidiram revirar um passado já sepultado e enviar relatos de abuso sexual.
Mexer em uma ferida profunda, ainda que em anonimato para proteger parentes da exposição, tem um motivo claro para todas: compartilhar experiências para que abusos sejam denunciados e traumas sejam superados.

TATIANA*, 30, ANALISTA DE ATENDIMENTO
Tatiana foi abusada sexualmente por um tio quando tinha só 9 anos. Agora consegue falar sobre isso e espera que seu relato, enviado pelo Facebook daFolha, dê forças para pessoas que sofreram a mesma situação.
Escrevo de forma anônima porque eu não tenho a intenção de chocar minha família e meus amigos. Mas eu sinto que é o momento de falar, abraçar a causa. Aproveitar que hoje, graças a Deus e a alguns anos de terapia, eu consigo falar sobre o assunto sem me magoar. Consigo fazer sexo de forma natural.
Para e pensa: eu tinha só 9 anos. A primeira vez que aconteceu eu estava de saia -eu sempre estava de saia! Será que por esse motivo eu estava pedindo? Não, eu não estava pedindo.
Eu confiava naquela pessoa. Era meu tio. Acreditava quando ele me tocava intimamente e dizia que aquilo era só carinho. Eu não gostava, não queria, sentia nojo quando, além dos dedos, ele usava a língua nas minhas partes íntimas dizendo que aquilo era carinho. Eu tive febre, vomitei, senti nojo e me calei. Tinha medo e vergonha. Não tenho mais.
Comecei a namorar aos 22 anos e só aí me senti preparada para me relacionar sexualmente. Roupa não dita caráter e muito menos desejo sexual. Meu corpo é meu templo e só eu decido com quem eu quero transar -eu estando de burca ou pelada.
Pense na sua mãe, nas suas irmãs, filhas e sobrinhas. Alguma mulher da sua família pode, neste momento, estar sendo abusada, molestada, estuprada e sofrendo calada. Não, eu não pedi. Não, eu não quis. Não, eu não tive culpa.
*
JOANA*, 22, DECORADORA
A culpa não é nossa! A culpa é dos nojentos aos montes passando por nós o tempo todo. Estou impressionada com tantas mulheres que, indignadas como eu, estão se abrindo. E quer saber? Já é hora. Se temos alguma culpa é a de nos calar, por medo ou vergonha.
Sim eu também já fui abusada, há dois anos. E de onde eu menos esperava -dentro da minha própria casa.
Não fui estuprada, graças à Deus. Mas foi uma tentativa. Um abuso muito maior do que levar uma cantada indecente na rua ou uma passada de mão na balada -que muitos não imaginam o quanto isso também é desagradável.
Isso deixou marcas profundas que supero um pouco todos os dias.
Sabe o que eu mais ouço? "Mas você estava de roupa curta?" A resposta é não, estava de calça e casaco. E mesmo que eu estivesse, não justifica.
Muitos dizem que o homem é assim mesmo, movido pelo instinto. Instinto é o caramba, somos todos seres racionais.
Digo isso tudo hoje por acreditar que esse seja o primeiro passo para acabarmos com os absurdos que acontecem todos os dias embaixo do nosso nariz e a maioria ignora. Você não imagina que conhece muito mais mulheres que já viveram muitos tipos de abuso.
Espero que isso ajude outras mulheres de alguma forma e que faça com que todos lutem por um mundo menos machista.
*
PATRÍCIA, 27, DESIGNER GRÁFICA
Muitos me conhecem, mais poucos sabem o que aconteceu comigo.
Tenho 27 anos e fui abusada sexualmente por uma pessoa da minha família quando eu era adolescente.
Nada foi feito, tive medo de ninguém acreditar em mim.
O agressor era da minha própria família. Pela primeira vez senti vontade de falar sobre o tema -hoje superei meu trauma.
Mas, ao vencer as marcas de uma violência, fui obrigada a vencer o preconceito: sou casada com uma mulher e minha opção também é cercada de agressividade e de ódio.
Nós temos medo desse mundo machista, sem amor e sem respeito. Não mereço ser estuprada e não mereço ser estuprada de novo. Ninguém merece. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Eu, hein? Vai entender o ser humano... Bolsas de grife

Foto: UNIVERSO - CHILE - VALE DEL VULCAN


Há uma lei em minha cidade que proíbe o uso de faixas dependuradas pela cidade para vender , divulgar, o que quer que seja . 

Exceção para as faixas de órgãos públicos para divulgar campanhas de vacinação, mudanças no trânsito, campanhas educativas, etc.

Acontece, que muitas pessoas não estão nem aí, e como brasileiros mal educados, se julgam no direito de desrespeitar as leis para promover seus negócios dependurando faixas e banners para todo lado .

Eu, que ando com minha velha Rural Wyllis, ano 66, cor de burro fugido, tipo rural mais enxuta e massa da cidade (Deve ter mais de 5 anos que não entra num lava jato e tem massa plástica até no teto), dirijo distraído, olhando para essas faixas, vendo seus reclames e telefones. Anoto os números e depois ligo para tentar fazer negócios, o que não tem sido muito fácil, devido ao atendimento de péssima qualidade dos atendentes dessas empresas.

Fatos que tenho relatado no FB e dos quais vocês são testemunhas disso .

Aliás, preciso parar de dirigir olhando para as faixas, ontem, quase entrei na traseira de uma Ferrari Califórnia novinha . 

Bem, a última faixa que vi e li informava a venda de bolsas de grife com entrega em domicílio .

Anotei o número do celular e pensando em fazer uma surpresa para a minha mulher, liguei para comparar preços de bolsas das marcas Dolce Gabana, Balenciaga, Luis Vuitton, Prada, Lacoste e outras, e quem sabe adquirir uma .

Ligo, toin, toin, toin - ocupado

Tento outra vez, e outra e mais tantas outras vezes e o danado do celular sempre ocupado . 

Até que, tchan! Surpresa, consigo ser atendido . Voz de mulher

Pergunto se ela é que anunciou a venda de bolsas .

Sim, meu querido . 

Já fiquei invocado, acho esse tipo de tratamento por telefone, com uma pessoas estranha, no mínimo estanho .

As bolsas que vocês anunciam são legitimas mesmo ou são cópias falsificadas?

Meu querido, nós importamos todos os nossos produtos, somos especializados em bolsas de grife e nossa clientela é top .

Qual a base de preço?

Depende do modelo e da marca . Temos bolsas, carteiras e porta níqueis das melhores grifes . Os preços podem chegar a te´a R$ 3.000,00 . 
O mais barato são as bolsa sem acessórios - carteiras e porta níqueis. E as mais caras as com o conjunto completo . 
Posso levar peças variadas do mostruário até a sua casa, você escolhe e pode pagar no cartão de crédito, levamos a maquininha . 

Mas, me diga uma coisa as bolsas, carteiras e porta níqueis, todas elas trazem o logo das suas marcas?

Claro!

Então vamos combinar o seguinte, me traga o mostruário dos porta níqueis para eu escolher um para presentear minha mulher no dia de nossa bodas de ouro .

Meu senhor não vendemos só porta níqueis, assim não dá.

Então faz o seguinte, para ficar mais em conta me traga os modelitos feitos nas “Indústrias de Couro Sintético Generalíssimo e Grande Presidente Stroessner” de Ciudad Del leste, no  Paraguai. 
Dizem que as melhores são as de pele de Tartaruga . 

Seu cretino, vai arranjar o que fazer, vai @”%$*(_+^?><}

Toin , toin, toin, toin !!!

Mais um telefone desligado na cara de um cliente, na maior falta de educação na história desse país .

Eu, hein? Vai entender o ser humano?????

Chá da tarde com Manuel Bandeira

Foto: Dica de Eric Cohen no Face Book

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”.
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…
A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

O Último Poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

O Anel de Vidro

Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
— Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, —
Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Poemas : Revista Bula

domingo, 30 de março de 2014

Chá da tarde com Charles Bukowski


Foto: OBVIUS - Poemas - REVISTA BULA

o pássaro azul
(Tradução: Pedro Gonzaga)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você ?

então queres ser um escritor?
(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.

quatro e meia da manhã
(Tradução: Jorge Wanderley)

os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro
e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

poema nos meus 43 anos
(Tradução: Jorge Wanderley)

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida—
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
(Tradução: Jorge Wanderley)

é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou —
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim—
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída — portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

outra cama
(Tradução: Pedro Gonzaga)

outra cama
outra mulher
mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha
outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.
todos à procura.
a busca eterna.
você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela…
é tudo tão confortável —
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…
após ela sair você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.
quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.
você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é meio-dia.
— outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.
você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais
sensato.
você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.

um poema de amor
(Tradução: Jorge Wanderley)

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

já morreu
(Tradução: Pedro Gonzaga)

sempre quis transar com
henry miller, ela disse,
mas quando cheguei lá
era tarde demais.
diabos, eu disse, vocês
sempre chegam tarde demais, garotas.
hoje já me masturbei
duas vezes.
não era esse o problema dele,
ela disse. a propósito
como você consegue bater
tantas?
é o espaço, eu digo,
todo o espaço entre
os poemas e os contos, é
intolerável.
você deveria esperar, ela disse,
você é impaciente.
o que você pensa de céline?
perguntei.
queria transar com ele também.
já morreu, eu disse.
já morreu, ela disse.
importa-se de ouvir uma
musiquinha? perguntei.
pode ser legal, ela disse.
dei-lhe ives.
era tudo que me restava
naquela noite.

Encurralado
(Tradução: Pedro Gonzaga)

bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…
ainda não, velho cão…
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora…”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.

confissão
(Tradução: Jorge Wanderley)

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Inventário de viagem

Foto: UNIVERSO - ZAPALLAR - CHILE

Zapallar é uma comuna da província de Petorca, localizada na Região de Valparaíso, Chile. Possui uma área de 288,0 km² e uma população de 5.659 habitantes.

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?”, pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder. 
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.

Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver.

Dica da amiga Silvana Bárbara, lá das bandas do Tocantins, porta de entrada para o PARAÍSO

Receita mineira di Repôi Picadim


Retirado do FB

terça-feira, 25 de março de 2014

Lançamento da Enciclopédia do Rádio Esportivo Mineiro - José Céu Azul Soares


Ontem, no estádio do Mineirão, foi o lançamento da Enciclopédia do Rádio Esportivo Mineiro, organizado pela Nair Prata e Maria Cláudia Santos.

Evento concorrido, com a presença de muitos dos radialistas biografados e seus familiares.

Eu e minha mulher, Walcira, representamos a família.

Cada biografado ou representante da família foi agraciado com um livro.

Senti e pude sentir a emoção de muitas pessoas durante o evento, vi jovens radialistas e muitos com rugas, cabelos brancos, todos com a mesma emoção de terem sido biografados e lembrados. 

Encontros e reencontros com atuais e antigos companheiros e amigos.

Já comecei a leitura e estou tendo o prazer de conhecer a história de pessoas que batalharam pelo esporte em Minas Gerais desde 1950 aos dias atuais.

Muitos deles representantes de um trabalho feito com amor e responsabilidade, mas numa época de uma infraestrutura precária , tanto nos estádios, como nas redações e estúdios das emissoras. Sem falar na simplicidade e qualidade dos equipamentos usados pela maioria das emissoras.

Quando garoto, conhecei vários deles que trabalharam na mesma época em que meu pai atuou e estou tendo a oportunidade de ver suas fotos e ler suas biografias.

Está sendo uma viagem no tempo ler as biografias, lembrar de nomes e ver fotos desses profissionais, mais do que isso, amantes do esporte que dedicaram grande parte de suas vidas em transmitir e divulgar a emoção de cada partida, lances, gols, penaltis perdidos, bolas nas traves, vitórias, derrotas, os muitos campeonatos, inúmeras conquistas, em todo os esportes que consagraram nomes e o nome de Minas Gerais no cenário esportivo nacional e mundial.


Nair Prata e o Blogueiro


Maria Cláudia Santos e Universo

Lindo trabalho feito com competência, qualidade e carinho pela Nair e Cláudia, juntamente com toda a equipe de biógrafos.

Agradeço em nome da família - Filhos: Stella Maris Cristina, Dorinha, Paulinho, Universo. Netos: Ulisses Soares e Juliana Soares, Luan. Bisnetos: Beatriz, Gabriel e Matteo. Nora e Genro: Renata Soares e Andrea Zanna, a atenção e carinho com que nos receberam durante o evento, na coleta de dados e pela biografia final escrita pela Cláudia.

Um agradecimento ao Chico Maia, que pelo seu blog, permitiu que minha filha Juliana, no Chile, visse a procura por contatos para encontrar meu pai, para que ele pudesse ser um dos biografados. Internet é algo fantástico.


BIOGRAFIA PUBLICADA DE JOSÉ CÉU AZUL SOARES


FOTOS: WALCIRA

Os grandes enjeitados - Euclides da Cunha - BLOG DO NOBLAT

 Euclides da Cunha

Euclides da Cunha aos 9 anos de idade

Os grandes enjeitados - Euclides da Cunha
Servis!... dançai, folgai - na régia bacanália... 
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha 
A treva e o crime atrai!...
Valsai - nesse delírio atroz, brutal que assombra - 
Folgai... a grande Luz espia-vos na sombra! 
Folgai, cantai - valsai!...
Que vos importa - ó vis, caricatos atletas - 
Se o povo dorme nu - nas lôbregas sarjetas - 
Entre o pântano e os Céus!....
Q'importa se essa luz - faz as noites da História! 
Q'importa se os heróis 'stão entre a lama e a Glória 
Entre a miséria e Deus!...
Q'importa-vos a dor; - a lágrima brilhante 
Do seio dos heróis -, estrela palpitante 
Que ao céu do porvir vai...
Q'importa-vos a honra, a consciência, a crença, 
A justiça, o dever!?... ah! vossa febre é imensa! - 
Folga, folgai, folgai!...
Q'importa-vos a Pátria...a pátria - é-vos um nome!.... 
Q'importa-vos o povo - esse galé da fome - 
Ó cortesãos, ó rei!?
Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso 
Vos ferve dentro d'alma - e se o direito é preso 
Nessa grilheta - Lei!
Fazeis bem em rir - ó pequeninos seres... 
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres - 
Avante pois - gozai...
Atufai-vos - rolai ó almas guarida - 
No abismo fundo e frio - o seio da perdida!... 
- Cantai... cantai, cantai!...
Gritai com força! assim... não percebeis agora 
O eco de vossa voz?... - de vossa voz sonora - 
Tremer na vastidão!?
Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?... 
Ele desce de Deus - ó dourada canalha - 
Ele é – Revolução!…

 Euclides Rodrigues da Cunha (Cantagalo, Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 1866 - Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909) - Além de muito conhecido pela prosa, Euclides também foi poeta, jornalista, geógrafo e engenheiro. Escreveu o notório Os Sertões - Campanha de Canudos e diversos artigos publicados nos jornais que trabalhou ao longo de sua vida.

Compartilhado do Blog do Noblat - Fotos: Internet - Casa da Cultura Euclides da Cunha

Uai? Uai é Uai, Uai ! Como surgiu a famosa expressão UAI dos mineiros


Fonte: FB - Não me lembro quem mandou, desculpe-me.

domingo, 23 de março de 2014

MPQ - Música Popular de Qualidade - Sonhos (Peninha) - Canta Monique Kessous




Quando o meu mundo
Era mais mundo
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho
Mais calma, mais alegria
No meu jeito de me dar
Quando a canção
Se fez mais forte
E mais sentida
Quando a poesia
Fez folia em minha vida
Você veio me falar
Dessa paixão inesperada
Por outra pessoa
Mas não tem revolta, não
Eu só quero
Que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho, sim
Não tem desespero, não
Você me ensinou
Milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz
(Peninha)

Dica da amiga Sonia Nigri, do Rio de Janeiro

Havia um tempo - Mário Quintana

Havia um tempo de cadeiras na calçada. 

Era um tempo em que havia mais estrelas. 

Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. 

E o cachorro da cas
a era um grande personagem. 

E havia também o relógio de parede.

Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo!

- Mario Quintana


Fotografia: Antuérpia - BÉLGICA, 1949.

Dica da prima querida Mercedes Basílio diretamente de Cabo Frio

Prato do dia - Torteloni in brodo com queijo grana padano


A massa e o queijo são italianos e comprados em supermercado tipo gourmet ou delicatessen.

O brodo (caldo) de frango ou carne, é preparado quando se cozinha carne ou frango.
Reserve a água do cozimento, apure o tempero, com sal ( o necessário), 1 folha de louro, orégano duas pitadas (esfregue o orégano com as pontas dos dedos na palma de outra mão, para reavivar o aroma e sabor, antes de adicioná-lo ao brodo).
Deixe esfriar destampado. Tampe e congele em seguida.
Quando for usar o brodo, retire da geladeira e ponha para dar uma fervida.
Adicione um pouco de nós moscada ralada ao brodo (a gosto)
Cozinhe o torteloni no brodo, siga as instruções de tempo que constar na embalagem.
Rale o queijo e polvilhe por cima do torteloni servido no prato.

Preparo do prato e foto: UNIVERSO

Sombras com as mãos - Divertindo as crianças

Você se lembra dessa brincadeira? Vamos relembrar com os filhos e netos essas imagens?
Então, mãos a obra. 
Pegue um abajur ou uma lanterna, coloque atrás de suas mãos e projete as sombras na parede.
Tente fazer os movimentos das bocas dos bichos. Ensine as crianças a fazer as sombras.
Faça novas brincadeiras com sombras, projete objetos e movimente a luz, mostre como as imagens se modificam.


Chá da tarde com Ferreira Gullar

Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira)

O Mar Intacto
Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.

Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio das corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é
contínuo negar-se no seu fogo, seu
arder é deslizar.

Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morrer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela
finge?

Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próximo findar.
Eis o que somos: o nosso
tédio de ser.

Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!

O girassol
vê com assombro
que só a sua precaridade
floresce. Mas esse
assombro é que é ele, em verdade.

Saber-se
fonte única de si
alucina.

Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.


PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

            O poema, senhores,
            não fede
            nem cheira
.
POEMA

Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                 se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
          bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
        morrem comigo.

Ou não:
       o sol voltará a marcar
       este mesmo ponto do assoalho
       onde esteve meu pé;
                                     deste quarto
       ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
           uma nova cidade
           surgirá de dentro desta
           como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente. 

MADRUGADA

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

EXTRAVIO

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Poemas e foto: Internet