domingo, 24 de abril de 2016

AVÓS NÃO MORREM. ELES VIVEM DENTRO DA GENTE - Rebeca Bedone - Revista Bula

Vovó Wal e Matteo - Foto: UNIVERSO

Certa vez, fiquei observando meu pai brincar com meus sobrinhos. Espantada, não era o meu pai que eu via: era o meu avô, o pai dele. O mesmo aconteceu outro dia em que minha mãe sovava a massa do pão: era a mãe dela que eu enxergava, com toda sua força e alegria na cozinha.

Rubem Alves escreveu uma crônica pro seu neto Tomazinho quando este ainda estava aprendendo a falar. No texto, o escritor conta que o menino adorava brincar de cavalinho sentado sobre as pernas do avô: “você brinca de cavaleiro, meus braços segurando os seus, você rindo, querendo sempre mais, e eu cantarolando uma canção que sua bisavó, a Oma, cantava para os netos, em alemão”.

Quando somos crianças, não temos noção de que nossos avós não são eternos. E o tempo passa tão rápido que, de repente, não temos mais os nossos avós por perto. Mesmo com eles ainda vivos, nossa correria diária cheia de compromissos muitas vezes nos faz adiar visitas e reencontros.

Até que um dia surge uma vontade inesperada de comer aquele bolo de laranja gostoso que só a vovó sabia fazer. Rubem Alves sabia disso, ele deixou para o seu neto esta mensagem: “se você tiver vontade de andar a cavalo é porque estará com saudade da perna do seu avô…”.

Hoje eu não tenho mais uma casa de avós para visitar. Infelizmente, os quatro já se foram. Mas os visito constantemente nas minhas saudades. Na casa dos avós podia tudo, mesmo quando eles ficavam bravos com os netos. Lá a gente brincava de “gato mia”, subia no telhado, entrava no jardim. Pegava hortelã e cebolinha da horta para fazer comida para as bonecas. Molhava o pão com manteiga no leite com café. Achava os chocolates escondidos no armário. Brincava com o galinho do tempo que ficava na estante da sala — aquele que mudava de cor dependendo da umidade.

Hoje é fácil perceber como não importava se a vovó trocava o nosso nome ou se o vovô não tinha condições de nos dar um presente caro. Como também não importava se chovia ou se o tempo estava seco (se o galinho estava rosa ou azul). Naquele tempo de ternura, travessuras e simplicidade, o que importava era o colo caloroso de nossos avós. Aquele era o jeito deles brincarem de cavalinho conosco.

Repare como o amor de nossos avós supera o tempo e a distância; eles também vivem em nossos pais. Olhe o seu pai brincando com seus filhos: é o pai dele se divertindo com você e seus irmãos. Observe sua mãe preparando o almoço: é a mãe dela abençoando a cozinha.

De geração em geração, a vida dá seu testemunho: os avós não morrem. A memória do que foi bom e bonito permanece nas partidas de baralho e nas pescarias, no sorvete de groselha e nos sonhos de goiabada, nos panos de pratos bordados por nós e nas histórias que passamos para frente.