domingo, 5 de agosto de 2012

As lágrimas de Rebeca - De Londres, Aylê Salassié


Mãe, olha eu em Londres

(London Bridge UCB News)

Michael Phelps, Ryan Lochte, Ye Shiwen, Usain Bolt vão ser eternamente lembrados pela brilhante participação nos Jogos Olímpicos de Londres, mas quem ganhou mesmo o coração dos torcedores foi a nadadora inglesa Rebeca Adlington, recordista em Pequim e grande esperança dos ingleses nos 800 m estilo crown livre . Pois, ela perdeu feio para uma jovem iniciante de 16 anos, a norte-americana Katie Ledecky. As lágrimas de Rebeca foram comoventes, mas sua elegância marcou definitivamente o bronze conquistado por ela , ao reconhecer as qualidades e a juventude da norte-americana.Olimpíadas não é só uma questão de ganhar o ouro, a prata ou o bronze. É também de postura e compromisso público. Quem faz do atleta olímpico narcisista é a mídia e o torcedor. Atleta olímpico tem características muito distintas de outras de modalidades livres . São a expressões nacionais. Envolvem a expectativa, na maioria das vezes, de toda uma Nação . “You’ve made the nation pround”( “Você fez a nação orgulhosa”) é frase com que os ingleses estão saudando seus medalhistas. Seguir, portanto, os preceitos da Carta olímpica, segundo a qual “o importante é competir”, transforma atletas olímpicos em cavalheiros. Mas, não é fácil porque estar ou manter-se em condições de competir dentro das regras olímpicas, que perseguem a perfeição do indivíduo, não é para qualquer um, embora não seja impossível também. De tal forma que só fato de chegar às olimpíadas já é um feito para nunca ser esquecido.Medalha não é o único drama dos atletas. À ansiedade natural pela espera da prova vão se somar, por exemplo, a longa preparação e a insegurança na largada ao lado de grandes recordistas mundiais . É inibidor, que o diga Tiago Pereira, que, apesar disso, conseguiu bater Michael Phelps nos 400 m medlley. Depois vem a idade. A delegação chinesa tem idade média inferior a 20 anos. Constrange os mais velhos. Alguns só se recuperam depois do primeiro susto. Na fase classificatória ainda é possível esse milagre. Foi o caso da inglesa Amy Smith, da natação, uma das últimas do revezamento 4x100 e que , em último lugar, estimulada pelo público, retornou entusiasmada para a bateria final ,e venceu a prova. A dupla brasileira Fernanda Oliveira e Ana Barbachan, da regata feminina, classe 470, em 14º lugar, de repente teve um insight (inspiração) e começou a acelerar, pulando para o 5º lugar. O torcedor tem também o seu papel. Ser amado em excesso pode ser um problema para o atleta, que, justamente por ser humano, vive uma estabilidade emocional enorme antes e depois das provas. (Usain Bolt dorme com dificuldade antes de uma prova). Na Inglaterra, a grande campeã do heptatlo Jéssica Ennis, adorada pelos ingleses, passa por uma situação similar no meio da competição. Sua competição consiste em sete provas – 100 metros,salto em altura, arremesso de peso, 200 metros rasos, salto em distância, lançamento de dardo e 800 metros nado livre -, que se desenvolvem em dois dias consecutivos, sendo quatro no primeiro e três no segundo dia. De um dia para o outro, liderando as primeira provas, a atleta se transformou numa ícone nacional, recebendo a consagração pública, embora sua chance de perder nas provas restantes seja ainda muita alta. Isso gera uma expectativa do público que atinge o atleta, cujo grau de ansiedade pode levá-la a não conseguir os pontos necessários para chegar ao pódio. Suas concorrentes são também muito fortes, mas o público as ignora.
Trata-se de uma relação de amor e ódio, na qual o torcedor é mais implacável que o próprio Comitê Olímpico. Em um minuto ele sai do amor eterno para a frustração total Transmitir com exagero o amor aos atletas, dizia ontem uma analista inglês, pode levar à inibição do atleta. A judoca brasileira Rafaela, depois de passar por tudo isso, foi agredida por uma torcedora pela internet, e não resistiu a dar uma resposta indelicada e anti-olímpica. Ainda bem que ela já havia competido. Mas, às vezes são os próprios torcedores que colocam o atleta numa situação altamente constrangedora. E não há como julgá-lo. Daí as lágrimas de Rebeca Adlington, que havia sido coroada, nas primeiras páginas dos jornais, antes de assumir o trono.