sexta-feira, 21 de abril de 2017

Fragmentos de Memórias de Jequitibá



Recebi mensagens de amigos e ex-colegas que estudaram no Colégio Evangélico de Alto Jequitibá comunicando a ideia de se escrever artigos que lembrassem a passagem e lembranças de cada um durante seus anos em Jequitibá, para publicação em um livro que a Associação de ex-alunos está pretendendo lançar.

A principio não me motivei a escrever por vários motivos,ter estudado apenas 2 anos lá (1960 e 1961), sem tradição familiar de gerações que estudaram, não ter o dom da escrita, ter retornado a Jequitibá apenas em duas oportunidades, uma vez retornando de férias com minha família, fui mostrar onde tinha estudado, tentar rever algumas pessoas que me marcaram positivamente e relembrar momentos vividos. Outra vez foi em um 7 de setembro, juntamente com um grupo de amigos ex-alunos.

Minhas lembranças são poucas, mas sempre estiveram claras em minhas memórias. As amizades se mantiveram, poucas em contatos mais permanentes, outras mesmo à distância se mantiveram vivas e afetivas, em alguns casos se tornaram uma lista de nomes guardados em um canto da memória.

Passei a pensar como fui parar em Jequitibá. Moleque folgado sendo criado em cidade grande, fazendo meus limites, vendo meus amigos Euzébio Cabral e Carlos Magno Cabral, amigos e vizinhos de rua, se preparando para voltar aos estudos em Jequitibá, acabei sendo motivado e apoiado com muito esforço financeiro pela minha família, a ir para o internato. Assim foi.

Chego num voo da Aerosita Táxi Aéreo, um avião Bonanza, aeronauta de primeira viagem, vejo a aterrissagem num alto de morro, pista meio em curva e lá esperando um Jeep com capota de aço, do Pedrinho. Descida e chegada a cidade. Pensei, deve ser um bairro mais afastado. Mal sabia que era a rua principal, e o prédio do internato surge inteiro.

Recepcionado pelo Juarez, encaminhado ao dormitório "3 do prédio velho", escolho cama, recebo primeiras orientações de como me organizar, mesa de cabeceira com toalha de banho e mala de objetos de uso pessoal e escolar, rouparia para guardar a mala maior. Uso de lavanderia, fazer o rol de roupas a lavar. Horários de refeições, banho , de aulas, de estudo, recreio, assembleias, cinema nos fins de semana, dias de educação física.

Sobre o permitido, e sobretudo o proibido: Fumar, roubar frutas em quintal alheio, nadar nos riachos, sair do perímetro urbano, beber e jogar valendo dinheiro. Esses eram os itens mais desejados e provocadores.

Primeiro fim de semana, fomos novatos e alunos antigos nadar na água mineral. Saímos do perímetro urbano, caímos na água, aparecem dois regentes, todo mundo de volta ao internato e primeiro castigo, gelo e próximo fim de semana sem sair do internato e ficar confinado no refeitório. A coisa era para valer. Não haveria moleza.

Primeiras amizades com alunos internos e externos. E as tentativas de se fazer o proibido era cada vez mais provocador.

Romper com as regras era a regra.

Foi onde mais estudei em minha vida, descobri que havia o "Quadro de Honra," para alunos que tiravam média de 8,5 nas notas. Prêmio, sair do internato todas as quartas - feiras à tarde, após os estudos, poder ir ao culto na igreja evangélica e as missas da igreja católica realizados em horários noturnos. 

Cada saída, era romper os limites do perímetro urbano era a aventura, voltar com a fronha cheia de laranjas de quintais ou fazendas alheias e entrar com ela sem ser pego pelo Juarez ou algum regente, era a vitória.Depois, era compartilhar com os amigos mais chegados.

Lembro-me das disputas esportivas dos times futebol e basquete, Sabia jogar basquete, mas era novo para os padrões e futebol era reserva do time do BV (Boa Vontade). Verdadeiro perna de pirata.

As assembleias nas datas festivas, tinham discursos do João Barra, com seu terno de linho branco, do Ziba, e as pregações do Reverendo Cícero Siqueira ou de Dona Cecília.

Os grêmios de cada turma se reuniam e todos tinham que participar, fazendo o que gostasse, cantar, recitar,tocar instrumento, contar piadas limpas, dançar, isso valia ponto para nota e havia o júri composto por alunos que davam notas a cada apresentação. A pior era : "cumpriu com a sua obrigação".

Tinha o Ênio, dando bronca a cada vez que cantávamos os hinos com as letras modificadas (Entrou um bichinho no meu nariz, sai bichinho, sai bichinho) ou arrastávamos os pés sempre que havia a famosa frase: "Alguém tem alguma coisa a comentar?". Aí era bronca do Ênio " O sô, faz isso não sô, quer ficar de pé lá na frente? Quer ficar de castigo"?

Os dias de cinema, aos sábados, eram aguardados com expectativas e quem tinha dinheiro recebido pela mesada autorizada e bancada pela família, comprava pipoca no carrinho, balas e doces na carrocinha do Sr. Silas.

Filme que tinha beijo, um Zé Mané colocava a mão na frente da tela, era a censura moral tupiniquim em ação. Aí, a vaia corria solta. Luzes acendidas e ameaças de se encerrar a seção de cinema. Melhor acabar de ver o velho filme censurado, do que ter que ir mais cedo para a cama.

Era com o Sr. Silas que também se comprava bananas para mandar fritar na cozinha e compartilhar pedaços com todos da mesa, manjar dos deuses, juntamente com a carne moída das quartas - feiras e a de porco aos sábados, quando havia. Aliás, sempre que havia carne moída ou de porco, alguém colocava um fio de cabelo no prato, isso depois de comer pouco mais da metade da comida e reclamava. Recebia um "prataço" cheio de comida vindo da cozinha e com muita carne. Pelo menos, por duas vezes, consegui a recompensa.

Os porcos capadões grandes eram limpos estripados e cortados em pedaços para serem fritos e servidos, foi a primeira vez que vi como se fazia o "porquicídio" sendo praticado nos fundos da cozinha do internato.

Justiça seja feita, o pessoal que trabalhava na cozinha, lavanderia, serraria e limpeza ralavam  e pegavam no pesado. Destaque para os colegas que eram serventes do refeitório.

Isso os redime do dia em que serviram um bolo de mandioca com molho de tomate por cima, foi uma infecção intestinal generalizada. A salmonela pegou firma e foi uma caganeira geral. Tinha privada com fila de espera de 2, 3 alunos, apressando o que estava a usar a dita cuja.
Imaginem o caos que foi, não havia descarga, isso era feito com uma lata d'água. Só não havia latas suficientes e nem tempo, desespero total.

Nós eramos realmente protegidos pela sorte e todos os tipos de anjos e santos, pois no dia em que faltou água foi permitido tomar banho no córrego que corria nos fundos do internato, íamos em grupos controlados por regentes. A ordem era,entrar, molhar, sair, ensaboar e entrar para enxaguar  o corpo. Tínhamos que ficar de olho nos detritos que desciam boiando, saídos dos esgotos das casas que ficavam nas margens do córrego. Ninguém pegou uma doença de pele ou infecção qualquer. Mas, nadar era proibido.

Havia um aluno que morava , creio duas casas abaixo do internato, onde a turma dos atletas se reuniam para exercícios, não me lembro do nome, lembro que subia e descia o córrego remando em uma canoa, parecia um índio ou Tarzã. Engraçado como certas imagens ficam grudadas na memória tantos anos depois.

Me lembro, também, dos apelidos, alguns eram herdados de alunos que por lá passaram, outros eram novos. Cheiroso, padeiro, vaqueiro, boiadeiro, tarzã, índio, caolha, João peneném, benguela, zunha, brigite, brigitinha, zé capeta, zé  paulada, bom bril, bode, bodinho,ratinho, caratinga, barão, cuia e outros mais.

Recordo da Banda Marcial, também conhecida como Banda Marginal, alguns insubordinados renitentes eram escolhidos para a banda para uma terapia musical e funcionou com muitos. Na festa católica do mês de maio, mês de Maria, a furiosa da igreja católica fazia uma apresentação , bem cedo, ao lado do prédio velho do internato, na praça ao lado, dando início as festividades.

Esse dia era esperado com viva ansiedade pelos alunos novatos, já que os antigos contavam que jogavam sapatos velhos, bolas de gude e o que mais tivessem escondido na sua mesa de cabeceira. Aos primeiros foguetes espocados e acordes da furiosa, dois alunos jogaram algumas coisas. Foi o suficiente para os regentes acabarem com a brincadeira no início.

Gostava de ver a disputa das duas bandas no desfile de 7 de setembro, quando uma passava pela outra, cada uma tocava mais vibrante para tentar abafar e superar o som da outra. Teve um ano, que um aluno do internato jogou uma mamucha de laranja na tuba da furiosa da igreja católica, o que gerou um grande bafafá.

As aulas de educação física, eram cedinho, no inverno uma neblina brava e um frio do cão. Depois de correr e fazer ginástica, vinha o pior, tomar o banho frio, tão  gelado que doía a cabeça. Depois era tomar o café e e ir para as aulas.

Tinha a turma do "atletas" que faziam musculação nos fundos da serralheria com equipamentos improvisados. Havia a dos fumantes,essa bem maior do que a dos atletas. Fumavam nos fundos do pavilhão , atrás das casas de professor e do diretor. Vinham os regentes era jogar fora os cigarros, pisar em cima para eliminar a prova do crime. Quando alguém era pego, cumpria castigo por "FUMAR ESCONDIDO" e para coibir o fumo, quem estava na roda , mesmo sem fumar, pegava uma pena de "SUSPEITO DE FUMAR", Não adiantava nadica de nada. Se soubessem que tudo que é mais reprimido e proibido, tornava o fruto mais saboroso, não tentariam reprimir e punir.

Num dia muto frio de inverno, descobri a melhor utilidade para o lápis de cor banca de meu estojo de lápis de cor. Cortei um no tamanho de um cigarro, colori a ponta misturando cor preta e vermelha. Atravessei a quadra de basquete soltando a fumaça do frio, com o "cigarro" nas mãos e levando a boca fazendo cena de que fumava. Vários alunos me viram e acharam que eu estava maluco, veio um regente e começou a me dar bronca e querendo me punir. Dei uma baita risada na cara dele e mostrei o cigarro de lápis. O camarada ficou com uma cara de tacho e com uma baita vergonha pois caiu no ridículo na frente de muita gente. Foi pior para ele que ainda tentou se impor. Dei-lhe mais uma boa risada e perguntei se era proibido se divertir. 

Na véspera das férias, era reservar lugar nos trens que partiam para o Rio de Janeiro e Manhuaçu. Contavam-se histórias das viagens de ambos os ramais. Eu ia para Manhuaçu, para passar uma noite no hotel e pegar o ônibus para Belzonte no dia seguinte. A liberdade de comprar cerveja e cigarro, levar escondidos para o hotel e beber e fumar até tarde da noite, em companhia de companheiros de viajem, julgando-se um adulto sem medo da repressão. 

Quando o trem parava em Manhumirim, muitos de nós íamos ao banheiro para fazer xixi e cocô, só para deixar rastros na estação.

Numa das férias de meio de ano, fomos recepcionados por pessoas, inclusive alguns colegas de internato, para defenderem a sua cidade de nossa insanidade. Muitos de nós não desceram do trem, alguns foram comprar lanches, esperar o trem começar a andar e sair correndo com a famosa frase "PAGO NA VOLTA", contava-se que para o Rio coisas similares aconteciam.
Jogávamos futebol dentro do trem e quando o trem diminuía a sua velocidade para se engatar na cremalheira para ajudar na subida da serra, com o trem em movimento descíamos do primeiro carro e subíamos novamente no último carro da composição.

Quero aproveitar para pedir desculpas por ter colocado formigas lava pés e açúcar, em camadas, entre o lençol, o cobertor e a colcha na cama de um colega de dormitório, que havia balançado minha mala da mesa de cabeceira e me dado o maior trabalho para limpar a mala, e todo o meu material escolar guardado. Pois um vidro de mel abriu e melou tudo.O pobre coitado , não conseguiu dormir, a noite foi de muito frio, levou muitas ferroadas e o regente teve que arrumar outra cama para ele terminar a noite. Não me lembro, agora, tanto tempo depois, o nome dele. Se ainda estiver vivo e ler esse texto. Me desculpe!!!

Enfim, foram dois anos que deixaram boas lembranças, amizades e conceitos que mudaram minha vida, que ajudaram a mudar minha forma de ver o mundo e de vivê-lo.

É isso, sou um jovem "gastinho" de 71 anos, chegando aos 72, que guarda em um canto da memória e do coração as melhores lembranças de seu tempo de aborrecente vivido saudavelmente aos seus 15 e 16 anos em Jequitibá.

Um abraço do tamanho do Universo para todos e muita falta de juízo.