domingo, 18 de maio de 2014

Os fantasmas do tsunami - Os vivos e os mortos depois da tragédia de março de 2011 - Richard Parry








Conheci, no norte do Japão, um sacerdote que exorcizava espíritos de afogados no tsunami de 2011. Os fantasmas só foram aparecer em grande número alguns meses depois da catástrofe, mas o primeiro caso de possessão chegou ao reverendo Kaneda em menos de duas semanas. Ele era o principal sacerdote de um templo zen da cidade de Kurihara. O terremoto de 11 de março foi o mais violento que ele jamais viu – ele e todas as pessoas que conhecia. A força a que as grandes vigas dos salões do templo foram submetidas fez com que a madeira vergasse. Os serviços de telefonia e o fornecimento de energia elétrica e água foram interrompidos por dias. Diferentemente dos telespectadores do outro lado do mundo, a população de Kurihara, sem eletricidade, a cerca de 50 quilômetros da costa, teve uma ideia difusa do que se passava. Mas a situação ficou bastante clara quando, de início, algumas famílias e, depois, enorme quantidade delas começaram a acorrer ao templo de Kaneda levando corpos para enterrar.
Quase 20 mil pessoas haviam morrido por causa do tsunami. Em um mês, Kaneda celebrou cerimônias fúnebres para 200 delas. Mais terrível que o número de mortos foi o espetáculo oferecido pelos sobreviventes enlutados. “Eles não choravam”, Kaneda me disse um ano mais tarde. “Não havia emoção nenhuma. A perda era demasiado profunda, a morte havia chegado de repente. Entenderam cada um dos fatos: a perda da casa, do meio de subsistência e da família. Entendiam um a um, mas não conseguiam compreender a situação como um todo, o que deveriam fazer ou até mesmo onde estavam. Para falar a verdade, não conseguimos conversar efetivamente. Só me restou ficar ao lado deles, ler os sutras e celebrar as cerimônias.”
Em meio a todo esse torpor e horror, Kaneda recebeu a visita de um conhecido, um construtor local que vou chamar de Takeshi Ono. Com vergonha do que lhe acontecera, Ono não quis ter seu verdadeiro nome revelado. “É uma pessoa tão inocente”, disse-me Kaneda. “Acredita em tudo que lhe dizem. Você é inglês, não é? Pois ele é como o Mr. Bean de vocês.” Eu não chegaria a tanto, porque Ono não tinha nada de ridículo. Era um homem forte, atarracado, de 30 e tantos anos, o tipo de pessoa que se sente mais à vontade vestindo um macacão. Mas possuía uma ingenuidade sonhadora que tornou tanto mais crível a história que relatou.
Ele estava trabalhando numa construção no momento do terremoto. Colou no solo por toda a duração do tremor; até mesmo seu caminhão chacoalhava, como se prestes a tombar. O retorno a sua casa, por ruas desprovidas de semáforos, foi assustador, mas o dano físico ao redor havia sido curiosamente pequeno: uns poucos postes inclinados, alguns muros desabados. Na qualidade de proprietário de uma pequena construtora, estava mais bem equipado do que qualquer um para lidar com as inconveniências práticas infligidas por um terremoto. Ao longo dos dias que se seguiram, Ono se ocupou de arranjar fogareiros, geradores, galões para armazenar combustível, sem dar muita atenção às notícias.
Tão logo, porém, as transmissões televisivas foram restabelecidas, ele se deu conta do que ocorrera. Viu e reviu as imagens, repetidas à exaustão, da coluna de fumaça sobre o reator nuclear, assim como os vídeos filmados por celulares, a onda negra a triturar portos, casas, shopping centers, veículos e figuras humanas. Eram lugares que ele conhecia desde pequeno, cidades de pescadores e praias logo além das colinas, a uma hora de casa. Assistir a sua destruição provocou em Ono um sentimento comum à época, mesmo entre aqueles mais diretamente afetados pelo desalojamento e pelo luto. Embora o fato fosse inegável – a destruição de cidades e aldeias inteiras, o desaparecimento de uma multidão de pessoas –, ele era também inconcebível. Inconcebível e, na verdade, absurdo. Insuportável, arrasador, inimaginável, mas também estapafúrdio.
“Minha vida tinha voltado ao normal”, ele contou. “Eu dispunha de gasolina, tinha um gerador, ninguém que eu conhecia estava morto ou ferido. Não tinha visto o tsunami, não com meus próprios olhos. Por isso, achei que estava numa espécie de sonho.”
 Dez dias depois da catástrofe, Ono, sua mulher e a mãe viúva viajaram para observar o que havia acontecido. Partiram de manhã, animados e bem-dispostos, pararam no caminho para fazer compras e chegaram à costa na hora do almoço. Ao longo da maior parte da viagem, o cenário era familiar: campos de arroz, aldeias de madeira e telhas, pontes sobre rios largos e vagarosos. Mas, uma vez nas colinas, começaram a cruzar com uma quantidade cada vez maior de veículos de emergência, não apenas carros da polícia e dos bombeiros, mas também caminhões militares da Força Japonesa de Autodefesa. E, descendo em direção à costa, a animação dos viajantes foi aos poucos se dissipando. E antes que pudessem compreender onde estavam, haviam chegado à área do tsunami.
De repente, sem aviso prévio, sem passar por áreas que exibissem danos progressivos. A onda havia chegado com força total, exauriu-se e parou em um ponto tão claramente definido como o do alcance da maré alta. Acima desse ponto, nada havia sido tocado; abaixo, nada permanecera como antes.
Nenhum instantâneo era capaz de descrever aquilo. Nem mesmo imagens de tevê davam conta da extensão da catástrofe, da ideia do que era estar no meio daquela aniquilação, circundado por ela. Ao descrever paisagens de guerra, muitas vezes falamos em devastação “total”. Mas mesmo os mais intensos bombardeios aéreos ainda poupam paredes e fundações de prédios destruídos, assim como parques e bosques, estradas e trilhas, campos e cemitérios. O tsunami não teve clemência, promoveu feitos surreais de justaposição que meras explosões não seriam capazes de igualar. Arrancou florestas pelas raízes, esparramando-as por quilômetros terra adentro. Descascou o pavimento das ruas, derrubou casas até os alicerces e alçou carros, caminhões, barcos e cadáveres ao alto dos prédios.
Nesse ponto de seu relato, Ono começou a relutar quanto a descrever em detalhes o que fez ou para onde foi. “Vi os destroços, vi o mar”, ele disse. “Vi prédios arrasados pelo tsunami. Não eram só as coisas em si, mas a atmosfera também. Eu costumava frequentar aquele lugar, foi um choque ver tudo aquilo. E todos aqueles policiais e soldados. É difícil descrever. Minha primeira reação foi de assombro. E logo depois de incredulidade.”
Naquela noite, os três sentaram-se para jantar, como sempre. Ono lembra-se de ter bebido duas latinhas de cerveja. Depois, sem nenhuma razão aparente, começou a ligar para os amigos. “Eu ligava e dizia: ‘Oi, como vai?’ – esse tipo de coisa”, ele conta. “Não que tivesse muito a dizer. Não sei por quê, mas estava começando a me sentir muito sozinho.”
Sua mulher já havia saído quando ele acordou na manhã seguinte. Ono não precisava fazer nenhum trabalho específico e passou o dia à toa em casa. Sua mãe entrava e saía apressada, mas parecia misteriosamente chateada, até mesmo enraivecida. Quando sua mulher retornou do escritório, ela também estava tensa.
“Algum problema?”, Ono perguntou.
“Quero me divorciar de você”, ela respondeu.
“Divórcio? Mas por quê? Por quê?”
Então as duas mulheres lhe descreveram os acontecimentos da noite anterior, após a rodada de telefonemas aflitos. Contaram que ele se atirara de quatro no chão e começara a lamber os tatames e o futon, que se contorcera como um animal; que, de início, elas haviam rido, nervosas, daquela bobagem, mas que se calaram quando ele começou a gritar: “Vocês têm que morrer, têm que morrer! Todo o mundo tem que morrer. Todos têm que morrer e se danar!” Em frente à casa havia um campo não cultivado, e Ono correu para lá e rolou diversas vezes pela lama, como se uma onda o derrubasse. “Lá, ali! Estão todos ali, vejam!”, gritava. Depois, levantou-se e avançou pelo campo, dizendo: “Estou indo até vocês. Vou até aí” – então sua mulher, lutando com ele, conseguiu levá-lo para casa. As contorções e os berros continuaram por toda a noite, até que, por volta das cinco da manhã, Ono berrou: “Tem alguma coisa em cima de mim!” Depois, desabou e caiu no sono.
“Minha mulher e minha mãe ficaram muito aflitas e furiosas”, ele disse. “É claro que me desculpei. Mas não me lembrava do que tinha feito ou do porquê.” Aquilo continuou por três noites. No dia seguinte, à noitinha, ele viu figuras passando defronte da casa: pais e filhos, um grupo de jovens amigos, um avô e uma criança. “Todos cobertos de lama”, contou. “Estavam a pouco mais de 5 metros de mim e me olhavam, mas não senti medo. Pensei comigo: ‘Por que estão com essas roupas enlameadas? Por que não se trocam? Talvez estejam sem máquina de lavar.’ Eram como pessoas que eu talvez conhecesse ou tivesse visto antes, em algum lugar. A cena toda tremulava, como um filme. Mas eu me senti perfeitamente normal, pensei que fossem apenas pessoas comuns.”
No dia seguinte, Ono sentia-se letárgico e inerte. À noite, ele se deitava, dormia profundamente por dez minutos, e então acordava tão animado e descansado como se tivesse dormido oito horas. Cambaleava ao caminhar, olhava fixo para sua mulher e sua mãe, e chegou mesmo a ameaçá-las com uma faca. “Morram!”, gritava. “Estão todos mortos, morram vocês também!”
Depois de a família suplicar por três dias, Ono procurou o reverendo Kaneda. “Tinha os olhos vidrados”, disse Kaneda, “como uma pessoa deprimida que acabou de tomar seu remédio. Logo vi que tinha alguma coisa errada.” Ono relatou sua viagem ao litoral, e as mulheres descreveram o comportamento dele desde então. “O reverendo olhava bem para mim enquanto eu falava”, diz Ono, “e em algum lugar dentro de mim eu me dizia: ‘Não olhe para mim assim, seu cretino! Odeio você! Por que está me olhando?’”
Kaneda tomou Ono pela mão e o conduziu ao salão principal. “Sentei-me. Não era eu quem estava ali. Ainda me lembro daquele sentimento forte de resistência. Mas parte de mim também estava aliviada – eu queria ser ajudado e queria acreditar no sacerdote. A parte de mim que ainda era eu queria ser salva.” Kaneda tocou o tambor do templo enquanto cantava o “Sutra do coração”:
Não há olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente;
não há cor, som ou cheiro;
não há paladar, tato, nada; não há reino da visão
nem do pensamento; não há ignorância nem fim
para ela; não há velhice, não há morte;
não há fim para a velhice e a morte; não há sofrimento
nem razão para ele, nem há fim
para o sofrimento; não há caminho, sabedoria nem plenitude.
Sua mulher lhe contou que ele juntou as palmas das mãos numa prece e que, conforme o sacerdote recitava, elas se alçaram bem acima de sua cabeça, como se puxadas lá de cima. Kaneda borrifou-lhe água benta, e então de súbito Ono voltou a si e se viu com os cabelos e a camisa molhados, tomado de uma sensação de tranquilidade e libertação. “Minha cabeça estava leve”, disse. “Em um instante, a coisa que estava ali tinha ido embora. Fisicamente, eu me sentia bem, mas meu nariz estava tapado, como se eu tivesse apanhado um forte resfriado.”
Kaneda falou-lhe com seriedade; os dois entenderam o que se passava. “Ono me contou que caminhara pela praia, no meio daquela devastação toda, tomando um sorvete”, o sacerdote disse. “Pôs até um adesivo no para-brisa que dizia ‘Assistência humanitária’, para que ninguém o detivesse. Visitou os escombros de forma leviana, sem pensar muito. Eu disse a ele: ‘Foi uma tolice. Se você vai a um lugar onde muitas pessoas morreram, é preciso ter respeito. É uma questão de bom senso. Você sofreu um castigo pelo que fez. Alguma coisa se apoderou de você; talvez os mortos ainda incapazes de aceitar que estão mortos. Por seu intermédio, eles tentam expressar pesar e ressentimento.’” Kaneda sorriu ao se lembrar disso. “Mr. Bean”, tornou a dizer. “Ele é tão inocente e franco. Eis aí outra razão pela qual conseguiram se apoderar dele.”
Ono reconheceu tudo aquilo e mais. Não haviam sido apenas os espíritos de homens e mulheres que o haviam possuído, ele agora compreendia, mas também os de animais – gatos, cachorros e outros, que haviam se afogado junto com os donos. Ele agradeceu ao sacerdote e foi-se embora para casa. Seu nariz escorria como se cheio de muco, mas o que saía era uma gelatina rosa, brilhante, que não se parecia com nada que ele já tivesse visto.

Aonda avançou terra adentro por não mais que uns poucos quilômetros, mas, além das colinas de Kurihara, ela transformou a vida do reverendo Kaneda. Ele havia herdado o templo na condição de filho e neto dos sacerdotes anteriores, e a tarefa de lidar com os sobreviventes do tsunami testou-o de uma maneira para a qual ele não estava preparado. Foi o maior desastre ocorrido no Japão do pós-guerra. A perda de vidas humanas numa única catástrofe foi a maior desde o bombardeio de Nagasaki, em 1945. E, no entanto, a dor não se manifestava; em vez disso, ela escavou a terra e se entocou lá no fundo. Uma vez atendidas as emergências, cremados os corpos, realizadas as cerimônias fúnebres e abrigados os sem-teto, Kaneda lançou-se à tentativa de ultrapassar a masmorra de silêncio em que via definharem tantos sobreviventes.
Começou a viajar pela costa com um grupo de colegas sacerdotes, organizando um evento que chamou de “Café de Monku”– um trocadilho bilíngue: além de ser como os japoneses pronunciam a palavra inglesa monk, ou monge, monku significa queixa. “Acreditamos que levará um bom tempo até que possamos voltar a ter uma vida calma, sossegada e normal”, dizia o folheto de propaganda. “Por que você não se junta a nós? Faça uma pausa e venha se queixar um pouquinho. Os monges ouvirão suas queixas e terão também uma ou outra monku a fazer.”
Munidas desse pretexto – uma xícara de chá informal e um bate-papo amigável –, as pessoas iam aos templos e centros comunitários em que acontecia o Café de Monku. Muitas moravam em “residências temporárias”, as horríveis cabanas pré-fabricadas, que congelavam no inverno e ferviam no verão – e onde iam se abrigar aqueles que não podiam se permitir coisa melhor. Os sacerdotes ouviam, solidários, e tratavam de não fazer muitas perguntas. “As pessoas não gostam de chorar”, disse-me Kaneda. “Consideram uma atitude egoísta. Entre aqueles que vivem nas residências temporárias, quase todos perderam um membro da família. Estão todos no mesmo barco, e por isso não gostam de transmitir uma impressão de autopiedade. Mas quando começam a falar, e quando você dá ouvidos a eles – sente o ranger dos dentes e o sofrimento, todo o sofrimento que não podem e não vão expressar –, em algum momento brotam as lágrimas, e elas escorrem sem cessar.”
De início, hesitantes, como que se desculpando; depois, com fluência crescente, os sobreviventes discorriam sobre o terror da onda, a dor do luto e o medo do futuro. Falavam também de seus encontros com o sobrenatural. Descreviam visões fantasmagóricas de estranhos, amigos e vizinhos, bem como de entes queridos mortos. Relataram assombrações em casa, no trabalho, em escritórios e lugares públicos, em praias e cidades arruinadas. As experiências variavam de sonhos sinistros e uma sensação vaga de inquietude a casos de verdadeira possessão, como o de Takeshi Ono.
Um jovem rapaz queixou-se de uma pressão no peito durante a noite, como se durante o sono alguma criatura montasse nele. Uma adolescente mencionou uma figura assustadora acocorada em sua casa. Um homem de meia-idade detestava sair na chuva, porque os olhos dos mortos o fitavam das poças d’água. Em visita a uma área arrasada da costa, um funcionário público da cidade de  Soma avistou uma mulher num vestido vermelho, longe de qualquer estrada ou casa mais próxima, sem nenhum meio de transporte à vista que pudesse tê-la levado até ali. Quando tornou a procurá-la, ela havia desaparecido.
Uma guarnição do corpo de bombeiros de Tagajo recebeu chamadas de lugares nos quais todas as casas tinham sido destruídas pelo tsunami. Os bombeiros foram até as ruínas assim mesmo e rezaram pelos espíritos dos que haviam morrido. Os telefonemas fantasmagóricos cessaram. Um taxista da cidade de Sendai pegou um passageiro de semblante triste que pediu para ser levado a um endereço que não existia mais. No meio da corrida, o taxista olhou pelo retrovisor e viu que o banco de trás de seu táxi estava vazio. Ainda assim, seguiu adiante, parou defronte dos alicerces da casa destruída e gentilmente abriu a porta do carro, para permitir que o passageiro invisível desembarcasse diante daquilo que provavelmente fora seu lar.
Em uma comunidade de refugiados em Onagawa, uma antiga vizinha aparecia nas salas das casas temporárias e se sentava para tomar uma xícara de chá com os moradores assustados. Ninguém teve coragem de lhe dizer que ela estava morta. A almofada sobre a qual ela se sentava ficava molhada de água do mar.
Sacerdotes – fossem eles cristãos, xintoístas ou budistas – foram chamados repetidas vezes para aplacar espíritos infelizes. Um monge budista escreveu um artigo em uma revista erudita sobre “o problema dos fantasmas”, e acadêmicos da Universidade de Tohoku começaram a catalogar as histórias. “São muitas as pessoas que andam tendo experiências semelhantes”, disse-me Kaneda. “É impossível identificar quem são e onde estão. Mas são incontáveis, e acho que esse número ainda vai aumentar. Tudo que fazemos é tratar os sintomas.”

Ajulgar por pesquisas de opinião, os japoneses estão entre os povos mais descrentes do mundo. Foi preciso uma catástrofe para que eu entendesse como é enganosa essa avaliação que eles fazem de si próprios. É certo que as religiões organizadas, o budismo e o xintoísmo, têm pouca influência na vida particular das pessoas ou na da nação. Mas, ao longo dos séculos, ambas foram forçadas a servir à verdadeira fé dos japoneses: o culto aos ancestrais.
Eu tinha notícia dos “altares domésticos”, ou butsudan, que ainda são vistos na maioria das casas e onde ficam os ihai, as tabuletas de madeira a lembrar os ancestrais mortos. Os butsudan são pequenos armários em laca negra, com entalhes ornamentais dourados de leões e pássaros; osihai são tabuletas de madeira preta envernizada que contêm inscrições verticais em dourado. Oferendas como flores, incenso, arroz, frutas e bebidas são depositadas diante deles. No Festival dos Mortos, no verão, as famílias acendem velas e lanternas para dar as boas-vindas aos espíritos ancestrais que retornam. Eu imaginava que essas práticas fossem costumes da esfera do simbólico, cumpridas da mesma forma como, no Ocidente, as pessoas participam de um funeral cristão, ainda que não acreditem de fato nas palavras da liturgia. No Japão, porém, crenças espirituais, mais do que expressões de fé, são manifestações de bom senso. Os japoneses as observam com tanta leveza e informalidade que é fácil não se dar conta delas. “Lá, os mortos não estão tão mortos como em nossa sociedade”, escreve Herman Ooms, estudioso das religiões. “No Japão, até onde a história alcança, sempre fez todo o sentido tratar os mortos como mais vivos do que nós os consideramos [...], a ponto inclusive de a morte se tornar uma variante, e não uma negação da vida.”
No cerne da veneração aos ancestrais encontra-se um pacto. Comida, bebida, orações e rituais oferecidos pelos descendentes constituem um agrado aos mortos, que, por sua vez, conferem boa sorte aos vivos. Em que medida as famílias levam a sério essas cerimônias é algo que varia, mas, mesmo para os que não as praticam, os mortos estão sempre presentes na vida doméstica. Na maior parte do tempo, são considerados como os velhos queridos, surdos e algo amalucados – já não ocupam posição central na família, mas se sentem incluídos em ocasiões especiais. Jovens que passaram em algum exame importante, conseguiram um emprego ou fizeram um bom casamento ajoelham-se diante do butsudan para relatar o sucesso. A vitória ou a derrota em alguma disputa jurídica relevante, por exemplo, é igualmente compartilhada com os ancestrais.
Quando o luto é recente, a presença do morto é avassaladora. Nas casas daqueles que perderam filhos no tsunami, tornou-se rotina me perguntarem, depois de meia hora de chá e bate-papo, se eu não gostaria de “conhecer” os filhos mortos. Levavam-me a um santuário repleto de fotografias emolduradas, brinquedos, bebidas e guloseimas favoritas, cartas, desenhos e cadernos escolares. Uma dessas mães chegou a encomendar retratos que, com Photoshop, mostravam como os filhos seriam, se estivessem vivos: um garoto, morto durante os primeiros anos da escola primária, sorria orgulhoso em seu uniforme de secundarista; uma adolescente vestia quimono à chegada da idade adulta. Naquela casa, toda manhã, a mãe iniciava o dia conversando com os filhos mortos, declarando seu amor e se desculpando, tão naturalmente como se estivesse em uma ligação interurbana.
O culto aos ancestrais foi violenta e extremamente afetado pelo tsunami. Juntamente com paredes, telhados e pessoas, a água arrastou consigo os altares domésticos, as tabuletas de madeira em memória dos mortos e as fotos de família. Túmulos foram rasgados, os ossos dos mortos ficaram espalhados; templos foram destruídos, assim como livros que listavam os nomes dos ancestrais ao longo de gerações. “A importância das tabuletas é incomensurável”, disse-me Yozo Taniyama, também sacerdote e amigo do reverendo Kaneda. “Quando acontece um incêndio ou um terremoto, os ihai são a primeira coisa que muitas pessoas tentam salvar, antes mesmo de dinheiro ou documentos. Muitos morreram no tsunami porque foram para casa em busca dos ihai. É vida, é como salvar a vida do pai falecido.”
Quando as pessoas morrem de forma violenta ou prematura, cheias de raiva ou angústia, elas correm o risco de se tornar gaki, “fantasmas famintos” que peregrinam entre os mundos e disseminam maldições e maldades. Há rituais para aplacar espíritos infelizes, mas, na sequência da catástrofe, poucas famílias puderam realizá-los. Além disso, muitos ancestrais tiveram a totalidade de seus descendentes arrastada pela onda. Seu conforto na outra vida estava à mercê da veneração da família viva, agora permanente e irrevogavelmente perdida. Seu desamparo era como o de uma criança órfã.
Milhares de espíritos passaram da vida à morte; incontáveis outros foram apartados de seus ancoradouros na outra vida. Como cuidar deles todos? Quem haveria de honrar o pacto entre os vivos e os mortos? Em tal circunstância, como poderia não haver uma multidão de fantasmas?

Mesmo antes de o tsunami atingir a costa, não havia no Japão lugar mais próximo do mundo dos mortos que Tohoku, a região ao norte da ilha de Honshu. Em tempos remotos, aquela zona já constituía um reino fronteiriço de bárbaros, gnomos e um frio glacial. Para os japoneses de hoje, ela permanece um lugar longínquo, periférico e algo melancólico, de fala dialetal e um conservadorismo peculiar – símbolo de uma tradição rural que, para os habitantes das grandes cidades, não representa mais que uma memória folclórica. Tohoku possui trens-bala, smartphones e todas as demais comodidades do século XXI, mas também abriga cultos budistas secretos, uma profícua literatura de contos sobrenaturais e uma irmandade de xamãs cegas que se reúne anualmente em um vulcão chamado Osore-san, ou “Monte do Medo”, o tradicional portal para o mundo subterrâneo.
Masashi Hijikata, a figura mais próxima que se pode encontrar de um nacionalista local, compreendeu de imediato que, depois da catástrofe, surgiriam assombrações. “Nós nos lembramos das velhas histórias de fantasmas”, diz ele, “e comentamos que muitas outras surgiriam. Pessoalmente, não acredito na existência de espíritos, mas isso não importa. Se as pessoas dizem que veem fantasmas, tudo bem – não vamos discutir.”
Hijikata nasceu em Hokkaido, a ilha situada no extremo norte do Japão, mas se transferiu para Sendai quando ainda estava na universidade, e tem pela terra adotada a paixão do imigrante bem-sucedido. Quando o conheci, ele tocava uma pequena editora cujos livros e revistas tratavam exclusivamente de temas ligados a Tohoku. Entre seus autores, o acadêmico Norio Akasaka – crítico rigoroso das políticas do governo para a região – ocupava posição de destaque. A usina, construída por Tóquio, abastecia a capital, e agora cuspia radiação sobre pessoas que jamais haviam se beneficiado de sua energia elétrica. “Antes da guerra, costumava-se dizer que Tohoku fornecia homens como soldados, mulheres como prostitutas e arroz como tributo”, Akasaka escreveu. “Pensei que esse tipo de situação colonial não existisse mais, mas mudei de ideia após o desastre.”
Hijikata explicou-me a política dos fantasmas, assim como a oportunidade e o risco que eles representavam para a população de Tohoku. “Percebemos que muitas pessoas estavam tendo experiências desse tipo”, ele me disse, “mas havia gente tirando proveito, tentando vender isso ou aquilo, alegando que traria alívio aos queixosos.” Ele conheceu uma mulher que tinha perdido o filho na catástrofe e a quem perturbava a sensação de estar sendo alvo de assombrações. Ela procurou um hospital, e o médico lhe deu antidepressivos. Foi ao templo, e o sacerdote vendeu-lhe um amuleto e aconselhou-a a ler os sutras. “Mas ela só queria rever o filho. Como ela, há muitas pessoas. Não se importam que sejam fantasmas: querem encontrá-los.”
“Considerando tudo isso, achamos que precisávamos fazer alguma coisa. É claro que há pessoas que estão passando por um trauma, e, se a saúde mental foi afetada, é necessário um tratamento médico. Outras se apoiam na religião, e essa é a escolha delas. O que fazemos é criar um espaço em que as pessoas possam aceitar que estão testemunhando algo sobrenatural. Fornecemos uma alternativa de ajuda pelo poder da literatura.”
Hijikata deu nova vida a uma forma literária que floresceu durante o período feudal: o kaidan, ou “conto estranho”. As kaidankai, ou reuniões em que as pessoas contavam esse tipo de história, eram um passatempo popular de verão, provocando calafrios nos ouvintes. As kaidankai de Hijikata tinham lugar em modernos centros comunitários e em auditórios públicos. Começavam com uma leitura a cargo de um de seus autores. Depois, membros da plateia compartilhavam experiências próprias: estudantes, donas de casa, trabalhadores, aposentados. Hijikata organizou concursos dekaidan e publicou os melhores deles numa antologia. Entre os vencedores estava Ayane Suto, que certa tarde conheci na editora.
Era uma mulher jovem, tranquila e bem-arrumada, de óculos e franja, que trabalhava num lar de Sendai para deficientes. O porto pesqueiro de Kesennuma, onde ela cresceu, foi uma das cidades mais atingidas pelo tsunami. A casa da família de Ayane situava-se fora do alcance da onda, razão pela qual sua mãe, a irmã e os avós escaparam incólumes. Seu pai, no entanto, engenheiro naval, trabalhava num escritório defronte ao porto, e naquela noite não voltou para casa.
“Eu pensava nele o tempo todo”, Ayane me contou. “Era óbvio que alguma coisa tinha acontecido. Mas disse a mim mesma que talvez ele só estivesse ferido e internado em algum hospital. Sabia que devia me preparar para o pior, mas estava longe de me sentir de fato preparada.” Ayane passou dias dolorosos em Sendai, tentando pôr ordem à bagunça que o terremoto levara a seu apartamento, sempre pensando no pai. Duas semanas depois do desastre, encontraram o corpo.
Ela chegou à casa da família pouco antes do caixão. Parentes e amigos estavam reunidos, a maioria vestindo roupas informais: tudo que era preto ou formal havia sido levado pela água. “Ao contrário da maioria das pessoas, ele não morreu afogado”, disse ela. “Morreu em consequência de uma pancada no peito, desferida por algo grande entre os destroços. No caixão, só dava para ver o rosto dele através de um visor. Como o tsunami ocorrera fazia duas semanas, eu temia que seu corpo já tivesse começado a se decompor. Olhei através do vidro. Pude ver que ele tinha alguns cortes e que estava pálido. Mas ainda era o rosto do meu pai.” Ela quis tocar aquele rosto pela última vez, mas o caixão havia sido lacrado. Sobre ele jazia uma flor branca, uma única flor que o agente funerário cortara e depositara sobre o esquife. Não havia nada de incomum nela. Mas, para Ayane, era extraordinário. Dez dias antes, no ápice de sua esperança e de seu desespero, e num esforço para afastar a ansiedade, ela havia ido a uma grande casa de banhos para se encharcar da água quente da fonte. Na saída, retirou as botas do armário e, ao calçá-las, sentiu uma obstrução no dedo do pé. “Senti uma coisa muita fria”, lembra-se ela, “mesmo através da meia. Era macia, fofa.” Ela enfiou a mão na bota e retirou lá de dentro uma flor branca, tão fresca e perfeita como se recém-colhida.
Um pequeno mistério: como a flor podia ter se alojado dentro de uma bota trancada num armário? Ayane esqueceu o episódio, até aquele momento junto do ataúde, quando a mesma flor reapareceu. “Da primeira vez, pressenti que poderia significar uma coisa ruim”, disse ela. “Talvez meu pai já não estivesse vivo, era um sinal de que ele tinha morrido. Mas depois refleti – sobre a frieza da flor, sua brancura e aquela sensação macia no meu dedo. E concluí que era o toque de meu pai, o toque que não pude sentir quando ele estava no caixão.”
Ayane sabia que uma flor era só uma flor. Não acreditava em fantasmas, nem que o pai de fato lhe enviara um sinal. Se aquele tipo de comunicação era possível, por que um pai amoroso se expressaria em termos tão obscuros? “Acho que foi uma coincidência”, diz ela, “e eu a transformei numa coisa boa. Quando as pessoas veem fantasmas, estão contando uma história, uma história que foi interrompida. Elas sonham com fantasmas porque, assim, a história continua ou chega a um fim. E se isso as consola, então é uma coisa boa.”
Publicada como um kaidan na revista de Hijikata, a história de Ayane ganhou um significado maior. “Houve milhares de mortes, cada uma delas diferente das outras”, diz ela. “A maior parte delas nunca foi contada. Meu pai se chamava Tsutomu Suto. Ao escrever sobre ele, compartilho sua morte com os outros. Talvez eu o esteja salvando de alguma forma, e talvez esteja salvando a mim mesma.”

Em meados do ano passado, procurei novamente o reverendo Kaneda. Dois anos e meio haviam se passado desde a catástrofe, e já não havia sinal dela. As cidades de Tohoku, as pequenas e as grandes, estavam em plena atividade com o dinheiro injetado para a reconstrução. Cem mil pessoas ainda viviam em casas pré-fabricadas, mas essa visão dolorosa foi apartada dos olhos dos visitantes. Nenhuma das cidades destruídas pela onda tinha sido reerguida, mas os destroços haviam sido removidos. Uma grama alta e grossa invadira a faixa costeira, e as ruínas ainda visíveis mais pareciam sítios arqueológicos abandonados que sedes de dor e desespero.
Fui visitar Kaneda em seu templo e me sentei na sala onde ele recebia visitas. Enfileiradas no tatame estavam dúzias de pequenas estátuas de argila que seriam distribuídas aos patrocinadores do Café de Monku. Eram representações de Jizo, o bodisatva que consola os vivos e os mortos, associado à gentileza e à misericórdia.
Kaneda contou-me que recentemente havia conhecido uma mulher de 25 anos, a quem vou chamar de Rumiko Takahashi. Ela lhe telefonara em junho, muito aflita e falando palavras sem nexo. Ameaçava se matar e gritava que havia coisas entrando nela. Naquela noite, um carro estacionou na entrada do templo. Dentro estavam Rumiko, sua mãe, sua irmã e seu noivo. Ela era uma enfermeira de Sendai, “uma pessoa muito gentil”, disse Kaneda, “não havia absolutamente nada de particular ou incomum nela”. Nem Rumiko nem sua família tinham se ferido no tsunami. Mas havia já semanas, segundo o noivo, que ela se queixava de algo vindo de algum lugar profundo e querendo entrar nela, de mortos que “pululavam” invisíveis ao seu redor. Rumiko foi arremetida sobre uma mesa. Ela se agitava enquanto Kaneda falava com a criatura dentro dela. “Perguntei: ‘Quem é você e o que quer?’”, contou ele. “Quando a criatura se pôs a falar, não se parecia nem um pouco com ela. Falou durante três horas.”
Era o espírito de uma jovem cuja mãe tinha se divorciado e casara de novo, às voltas com uma nova família que não a amava nem a queria. Ela fugiu e arranjou trabalho no mizu shobai, o chamado “comércio da água”, o universo noturno de prostituição, clubes e bares. Lá, cada vez mais isolada e deprimida, ela se viu submetida a um homem manipulador e mórbido. Sem que a família soubesse, sem que ninguém chorasse por ela, a moça se suicidou. Desde então, ninguém havia acendido nem um incenso sequer em sua memória.
Kaneda perguntou ao espírito: “Você vem comigo? Quer que eu o conduza até a luz?” O sacerdote então levou a moça ao salão principal, onde recitou o sutra e espargiu água benta. Quando as orações terminaram, à uma e meia da madrugada, Rumiko havia voltado a ser ela mesma e partiu com a família para casa.
Três dias depois, ela voltou. Queixou-se de uma dor intensa na perna esquerda; mais uma vez, tinha a sensação de estar sendo perseguida por uma presença estranha. O esforço para afastar o intruso era extenuante. “Aquele era o peso, a sensação que fazia com que ela quisesse se suicidar”, disse Kaneda. “Eu disse a ela: ‘Não se preocupe. Simplesmente deixe-o entrar.’” De imediato, o corpo de Rumiko se retesou, e sua voz tornou-se mais grave. Kaneda se viu conversando com um homem rude, que falava num tom peremptório: um marinheiro da velha Marinha Imperial que havia morrido em ação durante a Segunda Guerra, depois de sofrer um ferimento grave na perna, provocado por uma bomba.
O sacerdote falou ao velho combatente com uma voz tranquilizadora. Rezou, cantou, o intruso partiu, e Rumiko se acalmou. Mas tudo isso havia sido apenas um prólogo. “Todas as pessoas que apareceram”, prosseguiu Kaneda, “assim como cada uma das histórias que elas contaram, tinham alguma ligação com água.”

Ao longo de todo o verão passado, o reverendo Kaneda exorcizou 25 espíritos de Rumiko Takahashi. Todos, depois do marinheiro da época da guerra, eram fantasmas do tsunami. Para Kaneda, os dias seguiam uma rotina implacável. No começo da noite, Rumiko telefonava; às nove, seu noivo parava o carro na entrada do templo e a carregava para dentro. Em uma única sessão, chegavam a aparecer três espíritos. Kaneda falava com cada um deles, às vezes por várias horas. Inteirava-se das circunstâncias de cada um, acalmava seus medos e, gentil, mas com firmeza, ordenava que o seguissem em direção à luz. A mulher dele se sentava ao lado de Rumiko; por vezes, outros sacerdotes presentes se uniam às orações. Nas primeiras horas da manhã, Rumiko era conduzida para casa. “A cada vez, ela se sentia melhor, voltava para Sendai e ia trabalhar”, Kaneda conta. “Mas então, passados uns poucos dias, os espíritos a dominavam de novo.” Entre os vivos, com a cidade ao seu redor, ela se dava conta dos mortos, mil espíritos importunos a pressioná-la, tentando se apossar dela.
Um dos primeiros foi um homem de meia-idade que, falando por intermédio de Rumiko, gritava em desespero o nome da filha. “Kaori!”, dizia a voz. “Kaori! Eu tenho que chegar até ela. Onde você está, Kaori? Preciso chegar à escola, vem vindo um tsunami!” A filha dele estava na escola, perto do mar, quando houve o terremoto. Ele saiu correndo do trabalho e seguiu pela estrada costeira para ir apanhá-la, quando a água o alcançou. Sua agitação era intensa; ele estava impaciente e desconfiado.
A voz perguntou: “Eu estou vivo ou não?”
“Não”, respondeu Kaneda: “Você está morto.”
“E quantas pessoas morreram?”, perguntou.
“Vinte mil pessoas.”
“Vinte mil? Tantos assim?”
Mais tarde, Kaneda perguntou onde ele estava.
“No fundo do mar. Está muito frio.”
“Saia do mar, venha para o mundo da luz”, disse Kaneda.
“Mas a luz é tão fraca”, o homem respondeu. “Estou rodeado de corpos, não consigo alcançá-la. E quem é você, afinal? Quem é você para me guiar ao mundo da luz?”
A conversa se estendeu por duas horas. No fim, Kaneda lhe disse: “Você é um pai, compreende as aflições de um pai. Pense nessa moça cujo corpo você está usando. Ela tem um pai e uma mãe que estão preocupados com ela. Já pensou nisso?” Houve um longo silêncio e então, suspirando, o homem disse: “Você tem razão.” Kaneda cantou o sutra. Vez por outra parava, quando a voz emitia sons sufocados, que foram se transformando em murmúrios, até que o homem finalmente se foi.
Dia após dia, semana após semana, os espíritos continuaram vindo: homens, mulheres, jovens, velhos, com sotaques rudes ou elegantes. Contavam toda a sua história, mas nunca com detalhes – sobrenomes, nomes de lugares, endereços – que permitissem comprovar cada relato individual, e Kaneda tampouco sentia necessidade disso. Um homem sobrevivera ao tsunami, mas se matara ao saber que suas duas filhas tinham morrido. Outro queria se juntar a seus ancestrais, mas não encontrava o caminho, pois a água carregara sua casa e tudo que estava lá dentro. Um velho falava apenas o dialeto de Tohoku. Estava muito preocupado com a mulher, que havia sobrevivido e morava sozinha em uma das tristes cabanas de metal, sem ninguém para cuidar dela. Numa caixa de sapatos, ela guardava uma corda, que costumava contemplar e acariciar. O homem temia o uso que a mulher planejava dar àquela corda.
Kaneda ponderava e agradava, orava e cantava, e no fim os espíritos cediam. Mas dias ou horas depois de ele haver se livrado de um grupo deles, outro já vinha ocupar seu lugar. Uma noite, no templo, Rumiko anunciou: “Estou cercada por cachorros, uma barulheira! Eles latem tão alto que não aguento mais.” Depois, disse: “Não! Não quero. Não quero ser cachorro!” E, por fim: “Deem arroz e água a ele. Vou deixá-lo entrar.”
“Ela pediu que nós a segurássemos”, contou Kaneda, “e, quando o cachorro entrou nela, mostrou uma força descomunal. Três homens a continham, mas não tiveram força suficiente: ela os repeliu. Arranhava o chão e emitia um rosnado profundo.” Mais tarde, depois de o sacerdote ter cantado o sutra e de ela ter retomado a serenidade, Rumiko contou a história do cachorro. Ele havia sido o animal de estimação de um casal de velhos que morava perto da Central Nuclear de Fuku-shima Daiichi. Quando a radiação começou a vazar, os donos fugiram em pânico, juntamente com todos os vizinhos. Mas se esqueceram de soltar o cachorro da corrente, e ele morreu aos poucos, de sede e fome.

Com o tempo, Rumiko tornou-se capaz de controlar os espíritos, escolhendo quando queria ou não que entrassem. Um amigo de Kaneda, presente a um dos exorcismos, comparou-a a uma paciente que sofria de uma doença crônica e se habituara a vomitar: o que, de início, era nojento, depois foi se tornando comum e tolerável. Por volta do mês de agosto, Rumiko informou que já conseguia afastar os espíritos. Ainda tinha consciência da presença deles, que já não a atropelavam e empurravam, mas se escondiam pelos cantos do quarto. As chamadas telefônicas e as visitas tarde da noite foram se tornando cada vez menos frequentes. Rumiko e seu noivo se casaram e se mudaram para longe de Sendai. Para seu grande alívio, Kaneda não teve mais notícias dela.
O esforço despendido nos exorcismos era demasiado. Amigos começavam a se preocupar com o sacerdote. “Eu estava exaurido”, ele me disse. “Ao longo dos meses, eu havia me acostumado a ouvir as histórias dos sobreviventes. E de repente passei a ouvir as vozes dos mortos.”
As situações mais difíceis de suportar eram aquelas em que Rumiko era possuída por crianças. “Quando surgia uma criança”, relata Kaneda, “minha mulher a tomava pela mão e dizia: ‘É a mamãe. É a mamãe que está aqui. Está tudo bem. Tudo bem. Venha comigo.’” Primeiro apareceu um menininho bem pequeno, sem nome, pequeno demais para entender o que lhe diziam ou fazer outra coisa que não fosse chamar repetidas vezes pela mãe. Depois, uma menina de 7 ou 8 anos, que estava com o irmão ainda menor quando o tsunami chegou, e que tentou fugir correndo com ele. Mas os dois estavam se afogando, e ela soltou a mão dele. Agora, tinha medo de que a mãe fosse ficar brava. “Vem vindo uma onda preta”, ela disse. “Estou assustada, mamãe. Desculpe. Me desculpe, mamãe.”
A voz da menina soava apavorada e confusa. Seu corpo flutuava ao léu na água gelada, sem salvação, e foi uma longa luta guiá-la para cima, em direção à luz. “Ela agarrou firme a mão da minha mulher, até finalmente chegar ao portal do mundo da luz”, lembra-se Kaneda. “Depois, disse: ‘Mãe, posso continuar sozinha agora. Pode me soltar.’”
Mais tarde, a senhora Kaneda tentou descrever o momento em que soltou a mão da jovem mulher que dava voz à menininha afogada. O próprio sacerdote chorava por ela, e pelas 20 mil outras histórias de terror e extinção. Sua mulher, porém, só teve consciência de uma energia gigantesca se dissipando. Ela se lembrou da experiência do parto e da sensação de descarga de energia ao final da dor, quando a criança recém-nascida enfim adentra o mundo. 
Texto publicado na Revista Piauí
Dica de meu filho Ulisses