quarta-feira, 12 de março de 2014

O curral de boi pintadinhos - José Antônio Abreu de Oliveira

Foto: UNIVERSO - Boi do Fuxico - Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte
Minas Gerais - Brasil

Ao lado da casa paterna havia um cômodo isolado onde meus pais guardavam livros antigos. E revistas, e caixas vazias, e, vez ou outra, os bois pintadinhos e as mulinhas dos folguedos populares. Chamava-se sub-prefeitura, uma vez que ali fora alugado para ser o prédio daquela administração pública, em uma determinada época, já recuada no tempo. Não existia mais, como tal. Mas o nome ficou, e a placa. A sub-prefeitura foi a minha primeira universidade, que me atraía e fascinava, como depositária de segredos ocultos e tesouros. E onde eu entrava, escondido, surrupiando a chave guardada numa gaveta do escritório de meu pai.

Ali, eu podia ajuntar meus bois imaginários. Os despojos do boi pintadinho e das mulinhas de trapo ganhavam vida. Era meu curral dourado. Onde dava as ordens: -Passa, Mourisco! Avança, Queimado! Tchou, tchou, tchou! Era a hora de levar os animais para as campinas. Ou de pregar a ferradura nas mulas. Cortar as crinas, tirar carrapatos, cuidar das bicheiras. Misturar o sal grosso à ração. Formar a silagem. E fazê-los pular: e como pulavam alto! Mesma coisa com as mulinhas. Essas, sempre com os olhos arregalados, assustadas com meus caprichos, temerosas com os mata-burros inventados, as noites de chuvas e trovões em que fugíamos de perseguidores, a longa caminhada de minha tropa para atravessar os vaus dos rios tenebrosos. Em geral, vau de orelha, que os animais refugavam mesmo sob açoites.

Mas, cansado da vida de tropeiro e de candeeiro, eu subia na velha estante de livros e revistas. Procurava as revistas tipo Fazendeiro Moderno, que traziam fotos de bois. E que me proporcionavam aumentar o gado: nelores, zebus, gir, indo Brasil. Apreciava os bois com corcovas, pareciam mais ferozes, permitiam alucinadas aventuras.

Descia da estante com as revistas, deitava-me sobre os corpos inertes de pano do rebanho, onde encontrava algum conforto, e por ali quase sempre cochilava, entre corcovas e chifres reais e imaginados. Aqueles bonecos, a carcaça preta do touro, os focinhos das mulas recheadas de capim de colchão de alguma maneira me acalentavam, me compreendiam, se ajuntavam ao meu corpo e me abrigavam. E eu saía daquele esconderijo fortalecido. De tal forma, que um dia pude abandoná-lo e procurá-lo no real. As porteiras abertas do mundo, onde guardo as pistas e veredas. Pessoas que amei, que amo e amarei. Bem mais interessante que aqueles tempos de bonecos e panos, mas eles foram essenciais. A fantasia é a oportunidade de simulação. É o rascunho para o que vem depois. Toda realidade é um projeto, que começa na fantasmagoria. Salve a imaginação. Tchou, tchou, tchou, vem cá meu boi.

Dica da Professora, fotógrafa -  Leda Maria Lucas, mineira da gema, radicada em São Paulo 

Publicação autorizada pelo autor do texto - José Antônio Abreu de Oliveira - Cirurgião dentista na cidade de Varre-Sai - RJ.