quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ano novo vida nova

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Todo ano, à meia noite do dia 31 de dezembro, nós comemoramos a passagem para o dia 1 de janeiro dizendo feliz ano novo. Como se o ano tivesse vida própria e autonomia para nos trazer felicidade e nós pudessemos conjurar a infelicidade. Os chineses inclusive soltam rojões para afastar as energias negativas. Rojões embalados em papel vermelho, a cor que serve para conjurar o mal.

Sempre disse feliz ano novo sem refletir sobre a frase. Sem me dar este luxo. Me contento com o fato de dizê-la, abraçando os que estão por perto. Há alguns anos, no entanto, envio a uma lista de amigos e conhecidos, um e-mail com O ano será novo se você for de paz. Por que a paz é a nossa principal conquista. Quem evita a guerra e a luta de prestígio pode ter esperança.

Não é fácil ser de paz pois a pulsão de morte existe e nós não somos educados para contê-la. A exemplo disso, uma frase comumente proferida diante de uma contrariedade : « Se você fizer isso eu te mato ». Uma frase que legitima o assassinato e exibe o lado negro do inconsciente. Freud diz mesmo que basta pensar na importância do mandamento « Não matarás » para deduzir que somos produtos de gerações de assassinos e temos a paixão do crime no sangue.

Só é de paz quem se empenha continuamente em sê-lo. Só assim é possível não se desviar do bom caminho. Ou seja, daquele em que não queremos saber do ódio e a palavra prima por existir uma escuta verdadeira. Ser de paz é uma arte sobre a qual ainda não se escreveu um livro equivalente à Arte da Guerra de Sun Tsu. Como se nós precisassemos aprender mais sobre a manobra das tropas do que sobre o acordo entre as pessoas.

A arte da paz implica uma disciplina baseada nas vantagens pacifistas de agir de um ou de outro modo. Uma disciplina à qual subjaz a ética da delicadeza, que tanto ensina o cuidado quanto o respeito. Quem se exercita nesta disciplina presta um grande serviço aos outros e a si mesmo, fazendo um tempo novo acontecer.

Há várias maneiras de ser delicado. Uma delas é a de quem se dispõe a escutar, consegue se abstrair de si para deixar o outro existir, falando o que precisa. Amar é isso. E, quem se dispõe a escutar, não perde tempo. Pelo contrário, ganha pois se surpreende e se renova com o tesouro das palavras e das vidas. Cada vida é uma, absolutamente singular. Como cada flor. Nenhuma rosa é semelhante à outra. Mais ou menos aberta, mais ou menos branca, rosa, ou vermelha. Quando não tem uma cor menos convencional.

Para que o ano seja novo, basta se deixar surpreender pelos outros, colher assim a flor do jardim.

Texto enviado pela amiga virtual, professora, fotógrafa e blogueira Leda Maria Lucas - Leia o blog da Leda: www.sedafurta-cor.blogspot.com