quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - O amor natural - Poesias eróticas, sensuais ou pornográficas?

Depende da cabeça de cada um. Não deixa de ser poesia e arte.
De O AMOR NATURAL, 1992

PARA O SEXO A EXPIRAR

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.

Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.

Amor, amor, amor — o braseiro radiante

que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,

a minha se rebela ante a morte anunciada.

Quero sempre invadir essa vereda estreita

onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?

enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer

antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,

e assim possa eu partir, em plenitude o ser,

de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

O QUE SE PASSA NA CAMA

(O que se passa na cama

é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama

não conhecer pela rama

gozo que seja profundo,

elaborado na terra

e tão fora deste mundo

que o corpo, encontrando o corpo

e por ele navegando,

atinge a paz de outro horto,

noutro mundo: paz de morto,

nirvana, sono de pênis.

Ai, cama, canção de cuna,

dorme, menina, nanana,

dorme a onça suçuarana,

dorme a cândida vagina,

dorme a última sirena

ou a penúltima... O pênis

dorme, puma, americana

fera exausta. Dorme, fulva

grinalda de tua vulva.

E silenciam os que amam,

entre lençol e cortina

ainda úmidos de sêmen,

estes segredos de cama.

(Extraído de O AMOR NATURAL. Rio de Janeiro: Record, 1992)

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