sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fragmentos inteiros de Clarice Lispector

Não tenho tempo para mais nada...
Ser feliz me consome muito

Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania: depende de quando e como você me vê passar.

Eu acreditava em anjos.
E, porque acreditava, eles existiam.
Perder-se também é caminho.

Já que se há de escrever, que, pelo menos, não se esmaguem - com palavras - as entrelinhas.

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra "amor".

Há a vida que é para ser intensamente vivida.
Há o amor, que tem que ser vivido até a última gota sem nenhum medo. Não mata.

Sempre conserve uma aspa à sua esquerda e outra à sua direita.

Que medo alegre o de te esperar!

Tenho medo de dizer quem sou: no momento em que tento falar, não exprimo o que sinto e o que sinto se transforma, exatamente no que eu digo.

Quando se ama, não é preciso entender o que se passa la fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.

Ouve-me. Ouve o meu silêncio.

O que falo nunca é o que falo e, sim, outra coisa.
Capta a "outra coisa" porque eu mesma não posso.

Você pode, até, me empurrar de um penhasco...
E daí? Eu adoro voar!

Sou composta por urgências:
Minhas alegrias são intensas.
Minhas tristezas absolutas.
Me entupo de ausências,
Me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito...
Eu só vivo nos extremos...


Clarice Lispector
Pesquisa e fotos: Internet