sábado, 17 de setembro de 2011

Memórias de Chumbo - Voltaire de Souza (Marcelo Coelho)

Estou te vendo passar, fico te esperando...  - Foto:UNIVERSO

 Dor. Tristeza. Confusão.
A família do doutor Salústio lamentava a perda.
O derrame colhera o banqueiro aos 75 anos.
Velório tradicional. Na mansão da família.
--Quando é o enterro?
Ninguém sabia. Greve dos coveiros.
A viúva se chamava dona Alda.
--Fosse no tempo dos militares...
Ela tinha saudade dos anos de chumbo.
--Os coveiros trabalhavam direitinho.
Uma mosca pousou no nariz do cadáver.
--Me passa o inseticida, Renatinho.
O filho achava desrespeito.
Chamaram o jardineiro e outros empregados da mansão.
--Enterra aqui mesmo. Lá debaixo da goiabeira.
Pás. Enxadas. A surpresa macabra.
Várias ossadas ocupavam o lugar.
--Ah, tinha esquecido. Uns subversivos daquele tempo. O Salústio não dava moleza.
A memória, por vezes, faz greve também.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h05 - BLOG DO MARCELO COELHO - Cultura e Crítica - FolhaOnline - Crônica publicada há algum tempo no "Agora".