sexta-feira, 9 de julho de 2010

Saramago, despedida ainda que tardia - Discurso de José Saramago na Academia Sueca ao receber o Prêmio Nobel

José de Sousa Saramago
Nascimento16 de Novembro de 1922
Azinhaga, Golegã, Portugal
Morte18 de Junho de 2010 (87 anos)
Tías, Província de Las Palmas, Canárias, Espanha
NacionalidadePortugal Português
OcupaçãoEscritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista, poeta
Principais trabalhosMemorial do Convento; O Evangelho segundo Jesus Cristo; Ensaio sobre a Cegueira, etc.
PrêmiosMedalha do prêmio Nobel Nobel de Literatura (1998)
Prémio Camões (1995)

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem
escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia
ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o
campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se
alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós
maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram
vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do
Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram
analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao
ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às
pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo
das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do
enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente
de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois
velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem
retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem,
para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de
pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei
lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de
ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a
transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das
searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de
ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que
depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em
noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje
vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas
figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais
antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a
figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos
depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz
noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e
depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu
noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo,
surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago,
como ainda lhe chamávamos na aldeia.

Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os
casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros,
episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra,
palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me
mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca
pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha
adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a
resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais
demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez
repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as
esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso
dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a
ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos
pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o
campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me,
dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos
14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte
cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao
lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente
uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha
dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias
do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há
firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito
sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo
da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em
movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando
o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim
a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra
coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à
porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas
maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras:
"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse
medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e
contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento
quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida,
a consolação da beleza revelada.

Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido
alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com
porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de
ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô
Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte
o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por
uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a
ver."
(por José Saramago)

Enviado pela amiga e artista plástica - Lúcia Pellegrino (Tia Lucinha) de Brasília
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