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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

The Glass Fortress - A Fortaleza de Vidro - Nós (Yevgeny Ivanovich Zamyatin

zamyatin
Yevgeny Ivanovich Zamyatin
  
Escritor russo nascido em 1/1/1884, Lebedian, Rússia e morreu pobre, em Paris, França,  em 10/3/1937, aos 53 anos de idade.





Curta metragem de 2016, uma livre adaptação sobre a obra NÓS do escritor russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin.

Nós é um romance distópico: Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa"[1]. As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismoautoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, "caem as cortinas", e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações (WIKIPÉDIA).

Seu livro Nós influenciou os escritores Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), George Orwell(1984 e Ayn Rand (Aythem).

O livro foi escrito entre 1920 e 1921 e teve sua primeira publicação nos Estados Unidos em 1924, pois estava proibido na Rússia de Lenin.

Pesquisas: WIKIPÉDIA, YOUTUBE, INTERNET


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A gente se acostuma - Marina Colasanti por Antonio Abujamra





"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

MARINA COLASANTI

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Pinguela a maldição do vice - Aylê - Salassié Filgueiras Quintão


Ontem , tive a grata surpresa, mais uma, proporcionada pelo AYLÊ - SALASSIÉ, JORNALISTA, PROFESSOR, DOUTOR EM HISTÓRIA CULTURAL, EX-ALUNO DO COLÉGIO EVANGÉLICO DE ALTO JEQUITIBÁ (onde estudamos), mineiro de Pirauba e ESPECIAL AMIGO, com a chegada pelos Correios de seu novo parto, conforme citado em sua dedicatória no seu novo livro: PINGUELA  a maldição do vice (Editora Otimismo - Brasília), que vou ler com muita atenção e carinho.

Ao abrir o livro me deparo com uma deferência especial, tendo meu nome sido citado em seus agradecimentos, juntamente com outros colegas e amigos.

Só pode ser ter sido pela maneira como sempre me distinguiu, enviando-me seus textos e livros de extrema qualidade, os quais sempre compartilho e cito em minhas comunicações com meus contatos e amigos, principalmente, esse o real motivo, creio eu, pela sua postura em relação a seus amigos, dentre os quais eu tenho prazer e privilégio de me incluir e de poder usufruir de sua capacidade intelectual, historiador e humanista de primeira linha. 

Muito obrigado, mais uma vez, por essa especial atenção. Vida longa e muitos partos mais.

Recomendo o livro, quem gosta de ler sobre a história e estórias do Brasil, terá nele uma abordagem sobre os vice presidentes e os períodos de suas participações no embroglio político em momentos distintos entre nova república, ditadura, governos civis e militares, democracia, liberdades e repressões.

Aquisição pela Editora Otimismo - (061) 3386- 459 ou nas melhores casas do ramo em Brasília.
 


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Acordar - Ana Carolina

Foto: Internet - SUCKMYPIXXXEL


Acordar de manhã
Com a cama fria, vazia
O corpo quente de desejo
A alma lavada para enfrentar um novo dia
Acordar de manhã
Arrastar-se até o chuveiro
E só então despertar, com a água morna pelo corpo
Arrumar-se, da melhor forma possível,
Tomar o café às pressas para não perder a hora
E sair deixando no ar o perfume fresco...
Esse não é o acordar que eu desejo......
Essa é minha rotina.
O perfeito acordar seria
Aninhada em teus braços, nua
Quente, protegia, saciada
Ser convidada a despertar com afagos e beijos discretos
E uma ducha gostosa sem pressa
Como se fosse a primeira vez
E Fazer amor gostoso ali mesmo, no chuveiro
Para começar bem o dia
E gastar todas as energias 
Para, enfim, dormir novamente ao anoitecer
E novamente acordar de manhã... ao seu lado.
PESQUISA: INTERNET - POEMA E PINTURA

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Martín Chambi Jiménez ou simplesmente Martín Chambi - Gênio da fotografia em preto e branco

"Eu li que no Chile acredita-se que os índios não têm cultura, que eles são incivilizados, que eles são intelectualmente e artisticamente inferior quando comparado com os brancos e europeus. Mais eloquente do que a minha opinião, no entanto, são testemunhos gráficos. A minha esperança é que as testemunhas imparciais e objetivas examinará esta evidência. Eu sinto que eu sou um representante da minha raça; meu povo fala através das minhas fotografias."
Martín Chambi Jiménez - 1936

Martín Chambi Jiménez - nasceu em Puno, Perú, em 5 de novembro de 1891 e morreu em 13 de setembro de 1973, aos 81 anos de idade, na cidade de Cuzco, Perú. Foi um fotógrafo e pintor indígena nascido em Coaza, província de Carabaya, no norte do Lago Titicaca.

É considerado pioneiro da fotografia de retrato, reconhecido como poeta da luz e um mestre da luz em fotografia em preto e branco.
Foi um dos primeiros a fotografar Machu Pichu, retratou o cotidiano do povo peruano, sua etnia, tanto o povo mais simples, sobretudo os povos indígenas, como as personalidades, viajou e registrou belíssimas imagens das paisagens andinas e as ruínas históricas Incas. 

Seu pai mudou-se com a família para a província de Carabaya, onde foi trabalhar numa mina de ouro. Perto dali, na mina de Santo Domingo, Chambi deu os primeiros passos na arte da fotografia, decidindo assumi-la como profissão. Em 1908, foi para Arequipa, onde a fotografia era mais avançada.

Durante 9 anos Chambi trabalhou como aprendiz de Max T. Vargas.

Em 1917 montou seu primeiro estúdio em Sicuani. 

Publicou seus primeiros trabalhos em cartões postais em 1917.

Em 1923, abriu em Cuzco um novo estúdio, fotografando tanto os compatriotas indígenas quanto as figuras importantes da sociedade.

Auto retrato de Martín Chambi no alto de Carabaya

 Festa de carnaval em Cuzco -  Martín Chambi - 1930

Branco e preto na fotografia étnica - Martín Chambi

Cuzco - Poeta da Luz em Preto e Branco - Martín Chambi

Tive o primeiro contato com a obra de Martín Chambi, quando morava em São Paulo e o administrador do Flat, Sr. Walter, me deu duas folhas de um calendário com reprodução de fotos de Martín Chambi, estão abaixo.

Tenho guardado por cerca de 20 anos essas reproduções e serão emolduradas para decorar meu escritório multimídia, biblioteca, que ficará pronto em mais alguns dias.

Janelas de Machu Pichu - Martín Chambi 

Organista na Capela de Tinta, Sicuani, 1935 (Foto: Martín Chambi/Instituto)

Anos depois, vi algumas reproduções em um restaurante peruano, em Santiago do Chile. Fiquei fascinado e procurei saber mais sobre o talento desse artista.

Registrou em imagens a história e a cultura de seu povo, deixou um legado e um trabalho de grande técnica, sensibilidade, beleza e arte fotográfica.
Seu trabalho é sempre comparado com os de outros grandes mestres da fotografia.

Sem dúvidas, um dos maiores fotógrafos de todos os tempos.

 “A magia de Chambi pulsa em suas fotografias”, escreveu Mario Vargas Llosa. “A magia que o distingue de todos os fotógrafos com quem os críticos o tentam comparar, desde August Sander a Nadar, passando por Edward Weston, Ansel Adams, Irving Penn ou ainda Abraham Guillen”.

Resultado de imagem para Imagens de Martín Chambi

Recomendo conhecer mais sobre a obra desse gênio da fotografia: 

https://www.facebook.com/MartinChambi/
Wikipédia - Martín Chambi
http://martinchambi.org/es/blog/
http://martinchambi.org/es/

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vesperal - Cruz e Souza

Entardecer Digital - Chicureo - Chile - UNIVERSO

Tardes de ouro para harpas dedilhadas
Por sacras solenidades
De catedrais em pompa, iluminadas
Com rituais magestades.

Tardes para quebrantos e surdinas
E salmos virgens e cantos
De vozes celestiais, de vozes finas
De surdinas e quebrantos...

Quando através de altas vidraçarias
De estilos góticos, graves,
O sol, no poente, abre tapeçarias,
Resplandecendo nas naves...

Tardes augustas, bíblicas, serenas,
Com silêncio de ascetérios
E aromas leves, castos, de açucenas
Nos claros ares sidéreos...

Tardes de campos repousados, quietos.
Nos longes emocionantes...
De rebanhos saudosos, de secretos
Desejos vagos, errantes...

Ó tardes de Beethoven, de sonatas,
de sentimento aério e velho...
Tardes da antiga limpidez das pratas,
De epístolas do Evangelho!

Pesquisa: Internet - FOTO: UNIVERSO

terça-feira, 25 de julho de 2017

MPBQ - Música Popular Brasileira de Qualidade - Costura da Vida - Trenzinho Caipira - Bola de Meia, Bola de Gude - A Quatro Vozes

Doralice Otaviano
Jurema V Otaviano 
Jussara Otaviano

Conjunto vocal natural de Guaxupé - Minas Gerais.

O quarteto A Quatro vozes agora é um trio, com um repertório especializado em música popular brasileira.

Trabalho lindo de muita musicalidade, bom gosto na escolha do repertório e um vocal afinadíssimo.

Para ouvir e ver outros vídeos ou saber mais sobre o conjunto e contatos acesse os  links abaixo:

@aquatrovozes  










Pesquisa: Internet, vídeos YouTube, Facebook do grupo.

Sedução - Bruna Lombardi

Foto - Internet - Suckmypixxel

Sedução

Dentro de mim mora o animal
indômito e selvagem
que talvez te faça mal

talvez uma faísca
relâmpago no olhar
depressa como um susto
me desmascare o rosto
e de repente deixe exposto
o meu pior

em mim germina
uma força perigosa
que contamina
uma paixão vulgar
que corta o ar e que
nenhum poder domina

explode em mim
uma liberdade que te fascina
sopro de vida
brilho que se descortina
luz que cintila, lantejoula
purpurina
fugaz como um desejo
talvez te mate
talvez te salve
o veneno do meu beijo.

(BRUNA LOMBARDI)Pesquisas - poema e foto - internet

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Poema desconhecido de Hilda Hilst sobre o fracasso

Hilda Hilst - Menina

Hilda - estudante

Hilda - Foto Paulo Lemos



 Hilda Hilst - 1930 - 2004


O poema desconhecido de Hilda Hilst foi encontrado por Milena Wanderley.  


Fracassamos. Seremos os eterno fracassados.
Mas daqui a sete mil anos
abriremos as portas de todos
os claustros e lá nos encerraremos.

Seremos então os primeiros enclausurados
puros,
brancos,
mãos brancas, rosto branco
BRANCO - Ausência de amor.

Não haverá sinos em nossos campanários
(nem sinos, NEM AMOR)
qualquer luz em nossas celas
iluminará somente os livros
de quotidiana meditação.

Fomos improdutivos. Fomos estéreis.
Naufragamos no mar da compreensão.
Prostituímos ternamente as cousas
que só nós entenderíamos.

E nos tornamos eternos fracassados...

Não haverá sinos em nosso campanários
(nem sinos, NEM AMOR)

Poema foi escrito quando Hilda tinha 19 anos e foi publicado na revista TENTATIVA, em 1949.

Milena Wanderley é pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E pesquisa uma tese sobre Hilda Hilst.

Pesquisa, imagens e poema - Internet

sábado, 29 de abril de 2017

Fernando Pessoa explica a origem dos heterônimos - Trecho da carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro

Pesquisa no Blog Alguma Poesia - Outras Palavras - Poesia Net



Alberto Caieiro - Ricardo reis - Álvaro de Campos
Desenho de Almada Negreiros, pintor e escritor modernista português, amigo de Fernando Pessoa. Os desenhos se basearam nas descrições feitas por Pessoa.



[A ORIGEM DOS HETERÔNIMOS]

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriarmente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo... E tenho saudades deles.

(Em eu começando a falar — e escrever à máquina é para mim falar —, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz).

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de «Orpheu», foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido — estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido — , diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Alvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).

Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever

•  Outras Palavras
    Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro
    In Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa
    
Edição de  António Quadros
    Lello & Irmão, Porto, 1986

http://www.algumapoesia.com.br

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

POMPEIA: A VIDA SEXUAL NA ANTIGUIDADE - por Carolina Carmini em Obvius Magazine

Encoberta pelas cinzas vulcânicas do Vesúvio, a excitante vida (sexual) de Pompeia permaneceu preservada durante séculos. Longe dos olhares dos moralistas e dos conservadores, mantiveram-se obras e objetos que demonstram como o povo romano se relacionava com sua sexualidade. Estes achados fizeram com que durante muitos anos fez com os romanos fossem vistos como devassos. Mas a verdade é que eles compreendiam o sexo como algo natural e divino.

01_Pa_e_Hemafrodita_c54_68_CE_Afresco_presente_na_Casa_de_Dioscuri_Pompeia_01.jpg
Pã e Hemafrodita, c.54-68 CE, Afresco presente na Casa de Dioscuri - Pompéia.

Em 24 de agosto de 79 d.C., a cidade de Pompéia foi varrida do mapa pela erupção do vulcão Vesúvio. A tragédia, que matou milhares de pessoas e enterrou a cidade em seis metros de cinza, também preservou - como uma cápsula do tempo - imagens intactas do império Romano. Os estudos sobre a história romana tendiam a encarar a sexualidade através de segundo uma visão tradicional e conservadora. Durante anos, algumas peças com imagens explícitas eram destruídas durante as escavações. Outras, preservadas por seus valores artísticos, foram escondidas a sete chaves nos acervos dos museus.

02_Afresco_de_uma_relacao_sexual_entre_dois_homens_e_uma_mulher_encontrada_em_termas_em_Pompeia_02.jpg
Afresco de uma relação sexual entre dois homens e uma mulher, encontrada em termas em Pompeia.

03_Homem_removendo_o_veu_que_esconde_o_sexo_de_uma_mulher_com_seios_enfaixados_1_st_C_Pompeia_03.jpg Homem removendo o véu que esconde o sexo de uma mulher com seios enfaixados, 1 st C - Pompéia.

04_Friso_com_desenho_erotico_s_d_Roma_04.jpg
Friso com desenho erótico, s.d - Roma.

05_Detalhe_de_skyphos_com_um_grupo_erotico_1st_CE_Roma_05.jpg
Detalhe de skyphos com um grupo erótico, 1st CE - Roma.

"(...) vejo pessoas que iam e vinham furtivamente por entre portas com placas e meretrizes nuas. Um pouco tarde, e mesmo um pouco demais, compreendi que ela me havia levado a um bordel." Satyricon - Petrônio (? - 66d.C | Roma).

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Amantes na Cama, 1st C - Pompéia - Villa of the Centenary.

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Amantes na Cama, 1st C - Pompéia, Villa dei Vettii.

Muitas das imagens, hoje nos museus, anteriormente estavam presentes nas ruas e nas casas das pessoas nas mais diferentes classes sociais de Pompeia. Ao contrário do que os primeiros estudiosos pensavam, os romanos não eram faziam mais sexo do que as pessoas fazem na atualidade. A diferença estava no valor que o sexo possuía em suas vidas.

A arte erótica presente em Pompeia muitas vezes obrigou historiadores a reverem seus conceitos sobre a presença feminina. A mulher nua não era apenas retratada como uma divindade mitológica, mas também como um indivíduo praticante de sexo livremente. Há também teorias que afirmam que as relações sexuais eram desprovidas de afetividade, sendo muitas vezes comercias - com profissionais tanto do sexo feminino quanto masculino - ou com os próprios escravos. Homens e mulheres faziam uso de todos esses serviços.

08_Ato_sexual_Afresco_na_Casa_do_Amor_Punido_1St_CE_Pompeia_08.jpg
Ato sexual, Afresco na Casa do Amor Punido, 1St CE- Pompéia.

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Cena de ato sexual presente em pequeno quarto na Villa dei Vettii.

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Um casal no fundo de um espelho de bronze (ca. 70-90 AD).

"Falam de ti os fofoqueiros, Quíone, que não tens fodido nunca, e não há boceta mais casta do que a tua. Só que, quando tomas banho, não cobres a parte do corpo que deverias cobrir. Se tens pudor, põe a calcinha no rosto." Marcial (40 d.C a 104 d. C. poeta epigramático).

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Bacante tocada por um Sátiro, Afresco na Casa de L. Caecilius Jurundus, s.d - Pompeia.

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Sátiro e Bacante encantados um pelo sexo do outro, 1st C - Pompeia.

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Oferendas votivas em Pompeia com representações de seios e pênis - Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles.

O sexo era entendido como algo mágico e divino. Tanto que o falo - assim como os seios - era símbolo de sorte e da fertilidade, e ficavam nas casas e nos furos da entrada da cidade. Príapo - o deus da fertilidade com o falo gigante - era representado ao lado de cestas de frutas e plantações. Os deuses em geral eram seres muito sexuais. A maioria das imagens traz deuses e divindades ligados à sexualidade: Vênus, Marte, Mercúrio, Eros, Príapo, sátiros e bacantes.

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 Falo em templo de Pompeia.

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 O divino falo, 1st C - Pompeia.

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 Príapo medindo seu falo, 1st C - Pompeia, Villa dei Vetti.

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 Sátiro e Ninfa, símbolos mitológicos da sexualidade em mosaico de um quarto em Pompeia.

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 Marte e Vênus.

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Cena erótica presente em banho no subúrbio de Pompeia.

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Descrição de 'Coitus a tergo' (penetração vaginal por trás), Afresco, 1st CE - Pompeia.

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 Escultura com cena erótica.

Já nos murais dos prostíbulos, as imagens serviam de estímulo e de "cardápio" dos serviços oferecidos aos clientes. Em quartos simples com uma cama de pedra e um colchão em cima, os frequentadores encontravam à frente de suas cortinas as lobas - como eram chamadas as profissionais do sexo - com roupas diminutas e oferecendo, a quem pudesse pagar seu preço, uma noite repleta dos mais diversos prazeres.

Cenas de sexo anal são encontradas apenas nos prostíbulos e termas, ao contrário do sexo oral, que era mais aceito socialmente - pela alta estima que os romanos concediam à boca. Mas isso não implicava que o sexo anal fosse praticado naturalmente.

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 Cena erótica de sexo oral.

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 Falo na entrada de bordel com inscrição 'Hic habitat felicitas' (Felicidade Aqui ao vivo ou Aqui mora a boa sorte).

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Cena em vaso com dois jovens durante sexo anal.

A homossexualidade era vista com naturalidade e exposta em diversos murais pelos prostíbulos. Relações entre homens mais velhos e jovens eram toleradas desde que os jovens não fossem romanos livres. Há testemunhos de relações sexuais entre mulheres, mesmo que ainda pouco estudadas - principalmente na literatura - que demonstram que sexo entre mulheres também era aceite.

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 Detalhe do cálice de Warren (Museu Britânico) de um jovem sendo penetrado por um homem.

"Entramos então e, levados por entre placas, avistamos um grande número de pessoas de ambos os sexos, tão animados a se divertir nos quartos, que todos, por todos os lados, me pareciam ter tomado satirião. Ao nos perceberam, tentaram nos aliciar com sua petulância de andróginos; um deles, de pau duro até a cintura, partiu para Ascilto, e, derrubando-se sobre um leito, tentou moer o trigo em cima dele." Satyricon - Petrônio (? - 66d.C, Roma).

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 Cena erótica - cerca de 50 a 79 AD.

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 Cena erótica - cerca de 50 a 79 AD.

Além dos murais, também foram encontradas diversas inscrições - grafites - nas paredes das ruas e prostíbulos. De declarações de amor, a afirmações de ciúmes, chegando à descrição de atos e preferências sexuais, ao alcance dos olhos de qualquer habitante que passasse em frente. Alguns exemplos presentes em Pompeia podem ser lidos abaixo:

"Por que, Taís, me acusas sempre de ser velho? Ninguém é velho, Taís pra uma chupada." Marcial (40 d.C a 104 d. C. poeta epigramático).

"A noite toda fiz amor com uma moça lasciva cujas habilidades sexuais nenhuma outra pode superar. Cansado, depois de mil posições, pedi-lhe que me deixasse fodê-la como a um moço. Nem bem terminava meu pedido, e ela já me concedia seus favores. Rindo e vermelho de vergonha, pedi-lhe algo mais indecente ainda. Ela, cheia de luxúria, disse que sim sem qualquer hesitação." Marcial (40 d.C a 104 d. C. poeta epigramático).

"Eu, Lidê, posso satisfazer três homens ao mesmo tempo. Um com a minha boca, outro com meu cu. Recebo o pederasta, o amante e o fantasioso. Ainda que tenhas pressa e venhas com dois amigos, não deixes de entrar."

"Festo fodeu aqui com seus camaradas" ou "Aqui fui comida" (escrito na parede de um prostíbulo).

É interessante perceber as similaridades e rupturas entre romanos antigos - ou egípcios e indianos antigos - e as sociedades atuais. Pertinente porque rompemos preconceitos em relação a outros povos e suas práticas sexuais, e percebemos "gostos" em comum. Mas também, olhar o passado nos leva a uma melancolia: o sexo hoje está muito mais ligado aos conceitos de pecado, enquanto no passado era um caminho para o divino. E no final esvaziamos o significado de algo que, ainda que muito carnal, possuía sua parcela celestial e poética.

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 Cena erótica, cerca de 1 a 50 A.D.

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Cena de amor entre Sátiro e Bacante.

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 Polymphemus e Galatea.

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Sátiro e Bacante.


Escrito por CAROLINA CARMINI e publicado na OBVIUS MAGAZINE

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